14/11/2014

João Amaral: “Se pensasse nos riscos, não o faria!"








Com lançamento anunciado pela Porto Editora para o próximo dia 21 – esteve para ser lançado hoje, 14 de Novembro, no que constituiria uma boa prenda de anos para o autor – A Viagem do Elefante, baseada na obra homónima de José Saramago, é já uma das mais mediáticas bandas desenhadas portuguesas.
Deixando de lado este aspecto menor – em termos de criação – As Leituras do Pedro conversaram com João Amaral sobre o livro e as razões que o levaram a adaptá-lo.
Para ler já a seguir.


As Leituras do Pedro (ALP) - Porquê adaptar Saramago?
João Amaral (JA) - E porque não adaptar Saramago? Já anteriormente tinha pensado em realizar uma adaptação do Ensaio Sobre a Cegueira, uma obra que achei admirável em todos os sentidos. No entanto, nunca avancei com ela, porque soube entretanto que o Fernando Meirelles estava a realizar o filme baseado no romance e pensei que os dois projectos poderiam colidir e assim abandonei a ideia...

ALP - Porquê A Viagem do Elefante?
JA - Bem, a verdade é que este foi um livro que me foi apresentado pela minha mulher que, conhecendo-me melhor do que ninguém, pensou, quando o leu, que seria algo que eu gostaria de fazer. E não se enganou. A verdade é que quando li o livro, não só fiquei imediatamente preso a ele, como começaram a surgir imagens na minha mente e pensei que havia ali muito bom material para fazer uma adaptação. Anteriormente, isso já me tinha acontecido com A Voz dos Deuses, de João Aguiar e com o romance que referi na questão anterior. Por isso, não quis, desta vez, perder a oportunidade de me aventurar num projecto que soube, desde sempre, que iria ser longo.

ALP - Como reagiu a Fundação José Saramago à tua proposta? Como acompanharam o processo criativo?
JA - A Fundação reagiu muito bem desde o momento em que teve conhecimento do projecto e deu-me de imediato aquilo que eu pedi: apoio institucional. Aliás, nem nunca eu iria trabalhar no romance sem ter a questão dos direitos resolvida.
Mas, para além disso, tenho que referir a sua presidenta Pilar del Rio que foi para mim, a vários níveis, uma ajuda fundamental, não só pelo entusiasmo com que acompanhou todo o meu trabalho na sua fase de execução, como por várias conversas que tivemos sobre o livro. Convém lembrar que ela, melhor do que ninguém, acompanhou a feitura do próprio romance que, como se sabe, foi elaborado num período em que Saramago teve graves problemas de saúde, que quase o iam impedindo de concretizar a obra. Por isso, a sua ajuda foi muito valiosa e, também para mim, ela foi um pilar fundamental para que esta aventura chegasse a bom porto.

ALP - Não foi um risco adaptar numa linguagem gráfica a escrita tão personalizada de José Saramago e um autor da sua dimensão?
JA - Isso foi algo em que eu nunca pensei verdadeiramente. Até porque se pensasse à partida nos riscos, não o faria. O que eu pensei desde o momento em que li o livro é que queria produzir uma adaptação que fosse fiel ao espírito do romance. Daí que existam alguns diálogos de José Saramago que estejam quase tal e qual estão escritos no livro, porque por si só têm tanta força, que nem sequer precisam de ser mexidos. Mas, obviamente existem outras sequências que no livro surgem narradas com palavras e que eu considerei que, aqui, sendo uma adaptação gráfica, poderiam ser resolvidas através do poder das imagens.

ALP - Qual foi a maior dificuldade que tiveste de enfrentar para efectuar esta adaptação?
JA - Penso que no fundo foram as dificuldades que se prendem com todas as adaptações: encontrar um equilíbrio entre as imagens e o texto, até porque existem coisas que resultam muito bem a nível literário, mas que em imagens se perdem. E o contrário também é válido. Se eu consegui encontrar esse equilíbrio, sinceramente não sei, mas que tentei, tentei.
E, para além disso, também quis desenvolver uma obra que ajudasse a acabar de vez com dois estigmas. O primeiro é o de que a banda desenhada é uma arte menor, uma espécie de coisa feita para preguiçosos, quando se sabe muito bem que existem BDs que são, por si só, autênticas obras literárias. Quanto ao segundo, é o de que o Saramago é um autor difícil, que tem uma pontuação peculiar, etc., etc. Ora eu quis tentar mostrar que, de facto, a sua obra é muito interessante e, se conseguir que a banda desenhada traga novos leitores para o romance, então sinto-me satisfeito com o dever de missão cumprida... E o contrário também é válido.

ALP - Como conseguiste reduzir um romance tão denso para metade das páginas originais?
JA - Confesso que no início não sabia ao certo o número de páginas que iria ter. E, ter ficado mais ou menos com metade das páginas que o romance tem foi uma mera coincidência. Depois de adaptar o primeiro capítulo e ver, mais ou menos, quantas páginas em banda desenhada é que aquilo daria, comecei a estabelecer um intervalo de páginas que o livro poderia ter e que se situava algures entre as 108 e as 130 e tal páginas. Todavia, isso não quer dizer que todos os capítulos tivessem um número igual de páginas. Obviamente que não, mas dava-me mais ou menos uma ideia do que poderia acontecer. E, claro que existe uma ou outra cena que considerei que graficamente não seria relevante e que, por isso mesmo, eliminei. Mas tive sempre a preocupação de que a banda desenhada não traísse, no seu fundamental, o espírito em que estava escrita a obra. Esse foi sempre o objectivo que me norteou.
 
ALP - Quanto tempo demoraste a criar o teu livro?
JA - Foi um trabalho longo e demorado que me demorou cerca de dois anos e meio, processo durante o qual investi muito do meu tempo e das minhas economias, uma vez que o fiz sem qualquer género de adiantamento ou subsídio. Devo dizer que quando apresentei o projecto à editora, já estava praticamente feito.

ALP - Qual foi o método de trabalho que utilizaste? Estabeleceste um argumento inicial ou foste avançando na história conforme desenhavas?
Utilizei o método que utilizo em todas as bandas desenhadas que produzo. Desde o início que sempre soube qual seria o final do livro e que teria algumas sequências algo diferentes, uma vez que aqui a própria figura do Saramago aparece como narrador.
A partir daí, vou adaptando aos poucos o argumento que vai sempre numa fase mais adiantada que o desenho. Todavia, ao contrário do que acontece com outros autores, não gosto de adaptar o argumento todo e depois partir para o desenho. No meu caso pessoal, isso limita-me um pouco a criatividade, até porque há muitas ideias que me surgem quando estou precisamente diante do papel de lápis na mão ou no computador a efectuar todo o trabalho de cor. E esta divisão de tarefas permite-me também não estar todos os dias a fazer a mesma coisa.

ALP - Porque optaste pela inclusão do Saramago como narrador? Que benefício trouxe à obra?
JA - Em relação à questão que me pões, eu quis, desde o início, incluir  Saramago como narrador, porque essa foi uma das primeiras imagens que vi, assim que li o livro pela primeira vez. Sabendo todos nós que ele é o autor da história, seria interessante, dessa forma, aproximá-lo um pouco mais da sua criação.
Além disso, quis fazer uma certa referência à história da subida da montanha branca que ele efectuou em Lanzarote, estabelecendo assim uma espécie de paralelismo entre o longo percurso que o elefante tem que efectuar e o desafio que ele (José Saramago) lançou a si próprio quando se propôs alcançar aquilo que designava como sendo (salvaguardando as devidas diferenças) a sua escalada ao Evereste. A ideia foi a de criar uma espécie de paralelismo entre a viagem do elefante e a sua subida à montanha.
Em suma, para o elefante a sua longa caminhada acaba quando chega ao seu destino e o que irá acontecer dali para a frente não terá tanta importância como teve a viagem em si. Quanto a José Saramago, uma vez alcançado o cume da montanha, também sente que ali tudo acabou e a descida não terá certamente tanto para narrar como teve a subida.

ALP - Fizeste o livro todo em sequência ou houve cenas que trabalhaste fora da sua ordem normal?
JA - De um modo geral foi feito em sequência. Houve uma página ou outra que, por razões de querer saber de imediato qual seria o resultado final foi elaborada um pouco fora de ordem, mas de um modo geral foi seguindo o seu rumo, tal e qual como aparece.
Estando nós a falar num processo tão longo, claro que existe o risco de se notar a evolução do desenho que pode surgir melhor nas últimas páginas do que nas primeiras, mas eu gosto de ir trabalhando assim, a ver o “filme” também como um espectador.

ALP - Como olhas agora para o livro terminado?
JA - Esta é sempre a pior parte que é a da espera e ver, também eu, o produto final nas mãos. Depois, já sei o que é que vai acontecer. Vou ver e ficar inicialmente satisfeito, mas depois vou começar a descobrir coisas que poderia ter resolvido melhor. É o que tem acontecido com todas as minhas obras e, considero que com esta não vai ser excepção.
Não quero dizer com isso que não tenha dado o melhor de mim, até porque o dou sempre. Mas já sei que depois começo a descobrir defeitos aqui e ali e começo a dizer: se fosse hoje tinha feito isto ou aquilo de forma diferente. Mas, para mim, esse deve ser o processo natural de evolução...

ALP - Qual o teu próximo projecto? Voltar a Saramago é hipótese?
JA - Neste momento, ainda estou um pouco na fase de ressaca. Claro que já tenho algumas ideias de projectos que quero concretizar, mas ainda não sei ao certo o que é que irá avançar ou ficar para trás.
Quanto a voltar a Saramago, sim é sempre uma hipótese, até porque existem vários romances dele de que gosto muito. No entanto, pode ser uma inspiração indirecta, ao contrário do que aconteceu neste caso. Sinceramente não sei.
Mas já agora para responder a essa pergunta, posso deixar uma frase do próprio Saramago que diz mais ou menos o seguinte: “o que tiver que ser meu, às minhas mãos virá parar”.

(Fotos e imagens disponibilizadas por João Amaral; versão integral da entrevista que serviu de base ao texto publicado no Jornal de Notícias de 13 de Novembro de 2014)

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