07/11/2014

Sepulturas dos Pais













Por vezes há obras que deixam uma sensação quase indefinível, um misto de satisfação e desapontamento que nem sempre é fácil de explicar.
Aconteceu comigo em relação a Sepulturas dos Pais.
Pormenores adiante.


A desilusão (relativa), acabei por perceber após releitura e tempo de maturação, deve-se ao facto de este ser um livro de leitura (quase) directa. E, David Soares, habituou-me – habituou-nos - a mais, a zonas de sombra, a divagações e propostas de diversificação, a histórias em aberto, abertas à interpretação da nossa sensibilidade.
E Sepulturas dos Pais, uma obra sobre o contraste sonho/realidade, com um toque místico e fantástico, apresenta as duas dualidades de forma evidente, (quase) sem subterfúgios, (praticamente) sem lugar a divagação ou versões pessoais. O que lhe retira – apenas – parte do seu potencial.
Os protagonistas são Borges, filho de pescadores, um solitário – um pouco o idiota da povoação, que me fez evocar, de passagem, o belo Silêncio de Comés – e Janeiro, uma adolescente bela, desejável, disponível para (quase) todos, num arrepiante caminho de autodestruição obsessiva em nome da perda.
O encontro entre os dois, vai mudar as suas vidas, vai juntá-los e torná-los (momentaneamente) felizes mas vai ter as consequências  (pouco im)previsíveis.
É do choque entre a brutalidade – por vezes a roçar o mau gosto e a provocação, das cenas fortes entre Janeiro e os seus amigos (?) – e os momentos oníricos - protagonizados por Borges e pelas criaturas fantásticas (as almas dos pescadores mortos?) que ele consegue fazer emergir da areia - que se fazem os avanços de um livro incómodo e amargo, apesar da imagem final que parece afirmar que apesar dos homens, os sonhos continuam (para lá deles).
Ao lado de David Soares está André Coelho – e assinale-se como o escritor (ou ele e Mário Freitas?) - tem sabido escolher para cada novo relato aos quadradinhos o parceiro mais adequado em função do seu registo gráfico.
E sem dúvida que o traço de André Coelho, forte, rude, semi-indefinido, feito da oposição de pretos e brancos fortes e nítidos, era o indicado para traçar no papel as cenas amorais, violentas, por vezes quase grotescas, assustadoramente fantásticas que compõem este Sepultura dos Pais.

Nota
David Soares vai estar amanhã no AmadoraBD, entre as 16h e as 18h, para uma sessão de autógrafos.

Sepultura dos Pais
David Soares (argumento)
André Coelho (desenho)
Kingpin Books
Portugal, Outubro de 2014

190 x 245 mm, 62 p., pb, brochada com badanas

2 comentários:

  1. Pedro, sendo o meu livro favorito de BD do David, o "Palmas para o Esquilo", embora perceba o que queres dizer com a necessidade que tens de teres uma segunda leitura, o David é um contador de histórias plural. Nesse sentido, este livro é perfeito e não poderia funcionar doutra forma e além de tudo o mais, a escolha do André Coelho foi perfeita,

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    1. Caro Fernando Campos,
      Eu também gostei deste livro, mas como refiro no texto, esperava uma narrativa ,menos linear, por 'culpa' do David Soares que me tem habituado a tal.
      Em relação ao André, estamos plenamente de acordo. A crueza da história precisava de um traço agreste e a preto e branco como o dele.

      Boas leituras!

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