13/12/2016

Comic Con 2016: o meu balanço


Passei boa parte dos quatro dias da Comic Con Portugal 2016 na Exponor, em Matosinhos e as principais notas para mim são a diminuição substancial das críticas, quer no local, quer nas redes sociais, e a implantação definitiva do evento.

Para isso contribuíram decisivamente os melhoramentos logísticos introduzidos pela organização: o novo sistema de entradas reduziu bastante os tempos de espera, a oferta de restauração foi satisfatória, a circulação nos pavilhões foi melhorada (em especial no primeiro, onde estão localizados os stands de livros e merchandising), a nova localização do local dos autógrafos de BD funcionou bem com as filas a crescerem novamente (em relação ao que se tinha observado em 2015), chegando a ultrapassar a centena de pessoas para alguns dos autores. Os problemas de falta de rede nos telemóveis e pagamento por multibanco foram bem menores e o acesso à caixa multibanco foi mais rápido bem como as reposições de dinheiro. É evidente que algumas destas melhorias surgem também porque os visitantes, escaldados com o que aconteceu em anos anteriores, vão agora mais prevenidos, com dinheiro ou alimentos, por exemplo.

Mas, claro, nem tudo foi perfeito nem nunca poderá ser.
Se os cancelamentos de última hora parecem inevitáveis – David Bradley não veio devido a incompatibilidade de agenda, Brian M. Bendis ficou no aeroporto devido a um problema com um passaporte da filha – mas já afirmou nas redes sociais que virá em 2017 – e Julián López e o seu editor falharam devido a problemas de saúde – os que estiveram presentes satisfizeram a procura dos fãs ou não sejam os actores/autores a grande atacção da Comic Con.
Na área da BD, aquela que acompanhei mais de perto, Chris Claremont, Filipe Melo e Juan Cavia, proporcionaram as maiores filas para autógrafos, seguidos por Achdé, Francis Manapul, Esad Ribic e Alex Maleev. Uns mais solícitos, outros mais simpáticos, uns mais profissionais, outros a fazer o frete (leia-se Maleev) todos cumpriram as suas obrigações. Que são, aproveite-se a oportunidade para esclarecer: participar numa conferência de imprensa, participar num painel e dar uma hora de autógrafos por dia nos dias em que estão presentes. Gratuitos ou a cobrar, é opção deles; só assinar, fazer esboço rápido ou um desenho primoroso, idem, ficar apenas uma hora ou continuar até terminar a fila, também. Este ano, com Claremont a oferecer um autógrafo e a cobrar os seguintes (a 5 €; nos EUA cobra todos a $10), com Ribic e Maleev a esboçar apenas um livro e a fazerem-se pagar bem nas suas mesas no Artists Halley por outro tipo de desenhos ou com Achdé a fazer apenas um desenho por pessoa, com a recusa por parte de alguns de desenhar em folhas brancas, sentiu-se que os hábitos de outras paragens (EUA, mas também cada vez mais França e Bélgica) começam a chegar a Portugal. Gostando-se ou não, são os autores que têm a última palavra.
A passagem do Artists Halley para a zona comercial e a inclusão nele dos autores convidados (que assim desejaram) foram boas medidas em termos de proximidade do público, saudadas por diversos participantes, embora alguns tenham achado a medida penalizadora em termos de vendas, já que no ano passado eram os primeiros a ser vistos pelos visitantes.
O auditório BD, estava melhor localizado que no ano passado, mas em termos de condições acústicas continuou abaixo do desejável. Neste aspecto a organização já garantiu que em 2017 os painéis e conversas em torno da banda desenhada regressarão ao (excelente) auditório B ou, em alternativa, terão um verdadeiro auditório construído de raiz.

Este ano notou-se um pouco de desorganização e falta de apoio aos intervenientes no início de alguns painéis, os textos informativos no site algumas vezes deixaram a desejar e continua a faltar informação regular sobre as actividades que estão/vão decorrer. Espalhar alguns ecrãs pela Exponor, para anúncio de painéis, conversas, sessões de autógrafos, etc., parece-me uma medida relativamente simples e que facilmente poderia manter os visitantes a par do que está a acontecer, até porque o folheto e a própria informação online, várias vezes se mostraram ultrapassados pelas alterações introduzidas no programa.

Tanto quanto me apercebi e pude comentar com alguns dos responsáveis pelos stands, de um modo geral as vendas foram satisfatórias e corresponderam às expectativas – embora todos gostassem de ter tido quatro dias como o sábado que continua a ser o grande dia por excelência, garantindo quase metade do número total de visitantes. Neste aspecto, o dia extra introduzido este ano – o feriado do dia 8 – ficou abaixo do esperado: pensava-se que se podia aproximar do sábado mas revelou-se apenas similar a sexta e domingo - mas foi fundamental para que tivessem sido atingidos quase 73 mil visitantes, números que poucas iniciativas têm no nosso país.

No que diz respeito a BD impressa, a oferta diminuiu - este ano apenas tiveram stands a Arte de Autor, Devir, G. Floy, Kingpin Books (mais como stand de merchandising, como é compreensível) e Levoir – mas para estas – digo eu – como para diversos autores presentes no Artists Halley – disseram eles - o estar, o participar, o mostrar os seus produtos, o contacto com leitores é muito importante e justifica a presença, mesmo que esta possa no final ser financeiramente deficitária. Cada um terá de fazer a sua contabilidade e pesar os prós e os contras.

É inegável que a Comic Con não é um evento de banda desenhada, não é a banda desenhada que chama (a grande maioria) dos visitantes, mas esta área também beneficia do mediatismo das restantes. E, diga-se em abono da verdade, o cartaz BD, numa comparação relativa, é muito mais rico e aliciante do que o de Cinema & TV, pois os cabeças de cartaz daquele (Chris Claremont, Achdé ou o ausente Bendis) não têm equivalente em mais nenhuma área.
A organização – na conferência de imprensa de apresentação, na cerimónia de entrega dos Galardões BD, em diversas intervenções, mesmo com a edição do livro Hoje aconteceu-me uma coisa brutal – já manifestou o interesse e a vontade de manter a BD como parte integrante da Comic Con, mas a verdade é que também tem de haver também algum investimento por quem edita (ou cria) banda desenhada, mesmo que partindo de medidas alternativas que reduzam os custos e/ou potenciem as vendas – stands colectivos, promoções para quantidade, autores a assinar nos stands, maior interacção com os visitantes, são algumas sugestões.
Veja-se o efeito da presença da dupla Filipe Melo/Juan Cavia no stand da G. Floy. Aliás, no que diz respeito a investimento, em termos de autores e sem menosprezo para ninguém, é notável o empenho que os dois colocam na divulgação do seu trabalho, sempre disponíveis e bem dispostos, assinando/desenhando livros no stand, na zona de autógrafos, no final dos painéis, nos corredores da Comic Con…

Como nota final, pelo que significa/por ser a primeira vez/porque confirma a Comic Con como momento editorial importante, realço as novas edições da Devir e da G. Floy disponíveis na Exponor pela primeira vez, bem como Apochryphus (de um colectivo de autores), Crónicas da Comic Con (Editora In, selo da Zero a Oito), que decorre no evento e teve uma capa alternativa em exclusivo para a Comic Con, o mesmo tendo acontecido com Paper Girls (Devir). São sinais positivos, são passos na boa direcção.

(clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

8 comentários:

  1. Maria Caldas13/12/16 19:02

    Os valores cobrados pelo Chris Claremont variam muito de sítio para sítio, não são sempre 10 dólares... E com certeza a comic con ficou com parte do dinheiro, tendo em conta que era uma representante que controlava tudo e eu tivesse assistido a tentativas de cobrança a mais, tendo o próprio autor alertado para incorreção... E desculpem lá, mas já não há paciência para as queixas das editoras: ter a oportunidade de encaixar quatro dias de vendas, sem passar uma única fatura, significando isso pôr o dinheiro dos impostos no mealheiro lá de casa, a preços rigorosamente iguais aos praticados cá fora, é um sonho. Deviam humildemente aplaudir, não vá um dia alguém vestido de azul aparecer, e aí sim vão ficar tristes.

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  2. Saúdo as melhorias nas questões que atrapalhavam o usufruto da Comic Con, especialmente a redução do tempo de entrada. Gostei do facto do Chris Claremont apenas autografar um livro gratuitamente. Penso que não terá a ver com o dinheiro. Algumas pessoas levam 4 ou 5 livros e quem está no fim da fila acaba por não ter hipótese de obter o seu. Pelo menos foi isso que me aconteceu com o Melo e o Cavia. Eles são ótimas pessoas, super prestáveis e querem agradar a todos seus fãs mas fiquei uma hora numa fila que não era assim tão grande e acabei por ir embora de mãos a abanar pois eles tinham um evento agendado.
    Também reparei no frete do Maleev e concordo que se os stands dos editores tivessem feito algum tipo de descontos vendiam mais.
    A falta de informações foi o ponto mais negativo. Quando cheguei não havia sequer o programa impresso. No facebook avisavam para não perder a sessão de autografos do Bendis!!! E quem imaginaria que “A influência da Música na Cultura Pop” com a presença de Zé Ricardo contava ainda com a presença de uma orquestra filarmónica e que apresentaram um reportório de músicas de filmes? Pelo título do painel e por não haver mais nenhuma informação acabei por não ir. Quando soube do conteúdo tive pena.
    Pergunto também se alguém viu memorabilia (seria um carro do Batman?) ou a exposição sobre banda desenhada anunciadas no site?

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    1. A memorabilia era o Brian Muir, com uma exposição star wars, que penso tenha cancelado, pois não o vi em lado nenhum. Sim o facebook deles tava no automático... Quanto ao Claremont, tb concordo com a lógica do processo. Só que, acredita, não se poupou muito tempo, o senhor era muito lento até para assinar um livro. Às vezes lia o livro em voz alta e começava a folhear... Estava-se nas tintas para a fila... O Ribic chegou meia hora atrasado e despachou a fila dele (que era para ai metade) em 10 minutos. o Claremont demorou à vontade 1 hora nesse número de pessoas.

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  3. o Esad Ribic foi uma desilusão para mim. Infelizmente os grandes tem feitios terriveis.... irei continuar a seguir a saga dele em BD porque pessoalmente nunca mais. De resto adorei Claremont, o Achdé... e para o ano sonho dos sonhos um Frank Miller e um Luc Besson :)

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    1. Acho que isso é como tudo Chamusca, depende muito do gosto pessoal. Eu gostei do Esad, pareceu-me direto. Já o Claremont pareceu-me mole e já a viver uma "fase pai Natal", em que só assina e sorri... Depende muito do estilo com que nos identificamos.

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  4. O esad achei ele boa pessoa não é de muitos sorrisos mas é atencioso e respondeu as perguntas que lá lhe fiz
    Falou me do quanto gostava do moebius e disse me que tinha de falar com a levoir para perguntar o porque do namor dele ainda não ter sido lançado :D
    O sr claremont também foi muito atencioso principalmente para as crianças que vi lá a assinar autografos e a tirar fotos uma pergunta que ele se riu quando lhe fiz foi se ele ainda conseguiria fazer run iconico ou se tinha uma ideia para uma grande saga dos xmen e ele respondeu "Claro que sim ideias não me faltam agora tudo depende da minha idade"
    Quanto aos proximos que gostava de ver adoraria ver neil gaiman ou frank miller o proprio jeff lemire ou scott snyder seriam boas escolhas também mas por gosto pessoal também gostava muito do geoff johns mas com universo DC do cinema não acredito que consiga vir

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    1. Augusto Ministro14/12/16 23:12

      A Levoir pareceu-me pouco reativa... o ano passado correu-lhes bem, enquanto que este ano o stand deles tava vazio... Não terem aproveitado a presença do autor foi um erro colossal: o Loki vendeu que nem pãezinhos quentes.

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  5. Pode ser que a nível editorial realmente não desse para mais com sandman a ser lançado e se calhar já tem outra colecção a seguir do sandman quem sabe....
    Achei um bocado mal não haver material do Alex maleev com a vinda do bendis para o ano não há desculpa no demolidor que pode vir pela g floy ou scarlet ou com muita sorte os 2 vamos aguardar o que 2017 trará ��

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