18/01/2017

Príncipe Valiente 1961-1962

Humano em 5 vinhetas






Uma das características distintivas da longa saga do Príncipe Valente, é o lado humano do herói, exposto – mais uma vez – nas cinco vinhetas que hoje quero detalhar.

É verdade que Valente é um herói na completa acepção do termo. Sozinho, com companheiros próximos - com o filho Arn a partir deste volume -, à cabeça de exércitos de tamanho variável, frente a usurpadores, enfrentando bárbaros, derrubando tiranos, para exigir justiça, repor a ordem, defender o cristianismo ou exercer vingança, sempre demonstrou o que caracteriza os heróis de papel – e os outros também: coragem, audácia, destemor, agilidade, inteligência, sagacidade, determinação, capacidade de comando…
Mas, a par disto, Valente – e Aleta, os filhos, muitas das personagens com que se cruza - muitas vezes – bem mais do que nas 5 vinhetas que o título (por isso enganador) de hoje destaca - mostra-se humano, bem humano, tão humano como nós.
Na prancha 1260, aqui reproduzida, Valente acaba de chegar de uma missão de resgate, após perseguir durante dias um trio de prisioneiros de guerra fugidos que tinha raptado o príncipe Arn e dois amigos. Na vinheta 3, de regresso, bem sucedido, acompanhado pelo filho, é recebido com rispidez (vinheta 4) pela recém-mãe (de novo). (Ainda com a depressão pós-parto?), Aleta começa por o recriminar, por o acusar, não sabe bem de quê. Depois, passada a angústia, o medo, mais do que a raiva, desfaz-se em lágrimas (vinheta 5) agarrada a ele, ao mesmo tempo rocha, abrigo seguro, ser amado e… um simples homem, por isso sempre incapaz de prever as reacções da esposa, sempre inapto na resposta adequada a dar-lhe.
Valente, faz o que o instinto lhe dita, aquilo que Aleta espera. Abraça-a, conforta-a e, no meio da inesperada tempestade conjugal, ainda consegue surpreender-se, ‘maravilhado’: a mulher que até há poucos dias estava grávida, mais volumosa pelo filho que carregava, está (de novo) ‘muito delgada’! [Bela, apetecível, desejável? – Será isto que Foster nos (não) diz?]
Com amor, com cuidado – meio perdido, ainda – pousa-a num sofá (vinheta 6), ‘acaricia-lhe o cabelo’ e Aleta, passada a angústia, o medo, reencontrado o filho e o marido que ama, libertada finalmente do peso que a oprimia, adormece serenamente ‘mais cansada do que é suportável’, diz a fiel Katwin.
Na vinheta final, a 7, Aleta ‘enquanto se desvanecem lentamente as rugas do seu rosto’ – mais uma vez, de novo (muito) bela, (mais) apetecível, (ainda mais) desejável, na pose natural, no desprendimento do sono inesperado -volta a ser a mulher amada, que Val ‘contempla [mais uma vez] fascinado, de novo, sempre, enamorado. Porque acabou de fazer (mais uma vez, pela enésima vez?) uma descoberta: ‘a sua maravilhosa rainha não é mais do que uma mulher mortal’!
Como ele.
Também por isso, Valente, para além de tudo o mais que acima referi, revela-se inconstante: quando está longe arde de saudades e de desejo de regressar para perto da mulher amada, da família que quer, mas, mal chega, sente de novo o desejo de partir, o apelo da aventura, quando, na verdade, mais se afirma, quando sabe quem é, o que faz, como faz, porque faz, é herói. O que é mais fácil do que ser apenas marido e pai.

[Esta é uma das primeiras pranchas deste livro e ao lê-la o tema e a estrutura deste texto surgiu-me de imediato. Poderia ter escolhido diversas outras, pois este volume é feito de muitas despedidas e reencontros, devido às sucessivas viagens empreendidas pelo protagonista, das Ilhas das Brumas a Camelot, da peregrinação com Arn a Jerusalém à travessia do Mediterrâneo para o Atlântico pela Hispânia, das passagens pela decadente Roma, a histórica Antioquia ou a hoje (tristemente) célebre Alepo.
Não era ideia inicial escrever mais do que o que acima ficou, mas após a leitura completa não consigo deixar de o fazer: este volume é feito, também, claro está, das viagens e da faceta heróica de Val e das suas façanhas mas, talvez mais ainda, das várias e diversificadas histórias das personagens passageiras (não secundárias) com que se cruza em poucas vinhetas ou ao longo de várias pranchas/semanas, como a menina que se torna mulher, o frade que gostava de esculpir monstros, a jovem expulsa pelo seu povo cujo carácter se forja no calcorrear sozinha de montes e vales num mundo de homens, o escravo libertado mas agrilhoado pelo amor, o jovem grego dominado pelo ciúme, o herdeiro do condado que se revela fraco governante, até a foca brincalhona... Mesmo que, muitas vezes apanhemos as suas histórias a meio e os percamos de vista antes de sabermos como acabam…]
Príncipe Valiente 1961-1962
Los Principes Mercaderes
Harold R. Foster
La Imprenta
Uruguai, Setembro de 2016
260 x 340 mm, 112 p., pb, capa mole
680 pesos uruguaios / 25,00 €

(imagens disponibilizadas pelo editor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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