29/05/2018

Ermal


Comercial, outra vez

Tal como escrevi em relação a Dragomante - embora sejam em tudo obras díspares - parece-me que também Ermal é (mais uma) tentativa de fazer uma banda desenhada portuguesa que quero apelidar de 'comercial', porque assenta - neste caso - na facilidade de leitura e numa temática - o chamado 'western' pós-apocalíptico - (quase) sempre aliciante. E porque - também... - os protagonistas da sua acção são portugueses.

Mas podiam não ser, sem que isso alterasse uma vírgula - uma balão? uma vinheta? - neste trabalho de Miguel Santos. Esse protagonismo 'nacional' é-nos dado pelo nome dos principais intervenientes, reforçado pela indicação que nos é dada na sinopse da contracapa de que estamos perante “refugiados que fogem das ruínas de Portugal” - onde “o 25 de Abril nunca aconteceu” - “para o Ultramar”.
Num breve preâmbulo que revela que o hemisfério norte foi devastado por bombardeamentos nucleares que o destruíram, durante o confronto que terminou com a Guerra Fria, somos também postos ao corrente de confrontos entre diversos grupos organizados, que assentam a sua acção no comércio de escravos, na exploração petrolífera ou mineira, a par de pequenos grupos que tentam aproveitar-se do que conseguem roubar aos outros.
Se todo este enquadramento permite - assim haja continuidade dentro deste universo - diversos tipos de abordagem - complementares, não exclusivas - como acontece, por exemplo, no Jeremiah de Hermann, a verdade é que ele é - no caso deste Ermal, pouco significativo para a história contada. O que não impede que a missão de recuperar uma mala com documentos importantes, junto de um dos grupos organizados, não apresente momentos interessantes.
Como noutras edições da Escorpião Azul, sente-se uma grande urgência de publicar por parte do(s) autor(es) - impulsionados, com certeza, também, pelo momento editorial único que se vive - o que tem consequências na obra final apresentada. Atrevo-me a dizer - sem que isto deva ser encarado de forma negativa - que esta editora - aproveitando as facilidades que existem actualmente em termos de impressão - cumpre hoje o papel que há alguns anos estava 'entregue' aos fanzines de melhor qualidade. Para o bem e para o mal. Porque estas edições, hoje a única forma de novos autores crescerem e experimentarem, nos chegam ao preço de muitas outras existentes no mercado, qualitativamente noutro patamar. Penso que já o escrevi em tempos, beneficiariam imenso de um (verdadeiro) papel editorial, que levasse o(s) autor(es) a refazerem aqui, a corrigirem ali, a alterarem acolá.
Pessoalmente, estava curioso sobre Ermal desde que foi publicado, atraído também pelo seu grafismo e pelo formato italiano adoptado - e bem explorado - mas razões diversas só permitiram que me chegasse às mãos agora.
A leitura atenta, para além de revelar o tal distanciamento em relação ao enquadramento referido - Ermal podia ser contada, quase tal e qual, enquadrada na Guerra Colonial, por exemplo - mostra também limitações ao nível gráfico. Algum desequilíbrio nas proporções humanas, aqui e ali vinhetas demasiado estáticas, falta de pormenores ao nível dos rostos... Mas a verdade é que, narrativamente, o conjunto acaba por funcionar, e Miguel Santos, eventualmente consciente (de algumas) dessas limitações, consegue em parte reduzir o seu impacto graças ao colorido que, não sendo perfeito, se adequa ao relato, e à planificação variada que aproveita o 'comprimento' das páginas e a sucessiva mudança de enquadramentos para se tornar mais dinâmica.
Encarada como obra única e final - será assim que os potenciais leitores a vão ver quando depararem com ela numa livraria... - Ermal, poderá saber a pouco. Se considerada como porta de entrada - e também laboratório experimental - para um universo a desenvolver em futuros livros, então adivinha-se nela potencial que poderá vir a surpreender-nos.

Ermal
Miguel Santos
Escorpião Azul
Portugal, Outubro de 2017
230 x 160 mm, 64 p., cor, capa mole com badanas
ISBN 978-989-99800-7-5
12,00 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

1 comentário:

  1. Sabe a pouco realmente... faltam páginas para criar o tal mundo "pós-apocalíptico" que é esquecido ao fim de 10/15 páginas.
    Destacar pela negativa uma edição com má qualidade (a capa mole e o formato acabam por obrigar a arrumar o livro a 90 graus) e um preço totalmente desajustado quando comparado com as edições da G Floy ou Levoir.

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