04/10/2019

Os Cavaleiros de Heliópolis I

(Um)a História




Nome incontornável da BD francófona nas últimas três décadas - género a que tem voltado recorrentemente, apesar dos anúncios em contrário - o chileno Alejandro Jodorowsky, argumentista e também cineasta, deixa uma marca muito própria em todas as suas criações. Violência, sexo, uma visão esotérica do mundo, embora em doses diferentes consoante os registos, são sempre elementos presentes nas suas histórias e granjearam-lhe muitos seguidores fiéis - mas também alguns ódios de estimação...
Os Cavaleiros de Heliópolis, de que a Arte de Autor publica agora o primeiro volume (duplo), não é excepção, apesar de ter como ponto de partida uma temática histórica, mais exactamente, o mito (?) do bastardo de Luís XVI, de França, que a Revolução Francesa terá eliminado ou obrigado a fugir.
Jodorowsky - como outros já fizeram antes dele - pega nele, e transforma-o à medida das suas obsessões narrativas. Torna-o hermafrodita - embora sem grande exploração deste factor, até agora - apresenta-o como um guerreiro de eleição, baptiza-o como Asiamar e fá-lo candidato a um grupo reduzido de seres imortais que regem o nosso mundo, onde encontramos, também, o egípcio Imhotep, o chinês Lao Tsé, o apóstolo João ou o judeu Nostradamus.
Depois de narrar com bastante pormenor a génese do bastardo, ainda no primeiro tomo - Nigredo, a obra ao negro - expõe-nos o processo iniciático de Asiamar, tendo por base o sólido desenho de cariz realista de Jérémy, bastante expressivo, o que potencia o recurso frequente a grandes planos e um colorido maioritariamente em tons sombrios, que exploram o bom uso de volumes que patenteia.
Quanto ao segundo relato - Albedo, a obra ao branco - reúne Asiamar a Napoleão Bonaparte e, com grande liberdade criativa e ficcional, explora de forma curiosa e estimulante os sonhos de grandeza do futuro imperador.
Sendo uma série de contornos ainda indefinidos e com várias possibilidades de desenvolvimento, Os Cavaleiros de Heliópolis, para além do bom trabalho gráfico, beneficiam da maturidade narrativa de Jodorowsky que, para já (?) surge bastante contido neste díptico, o que até poderá ser um bom prenúncio para quem costuma desconfiar do criador chileno...

Boa edição
Cada vez mais, este parece ser o paradigma de publicação de BD francófona entre nós: edições duplas, o que permite a aproximação ao modelo das compilações norte-americanas no número de páginas, a um preço (apesar de tudo) aceitável devido ao formato maior.
E quando, como no presente caso, a impressão é feita com a qualidade que esta apresenta, é difícil resistir ao (objecto) livro. Apreciem a textura da capa, o relevo e acabamento das letras dos títulos e dos autores ou a boa gramagem do papel, para perceberem do que estou a falar... E de como faz tanta diferença ler - assim! - em papel ou em suporte digital...

Os Cavaleiros de Heliópolis #1
Jodorowsky (argumento)
Jérémy (desenho)
Arte de Autor
Portugal, Setembro de 2019
232 x 310 mm, 120 p., cor, capa dura
23,50 €

(versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 30 de Setembro de 2019; imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

2 comentários:

  1. Era simpático termos o Barracuda de Dufaux, um escritor superior e também com arte de Jérémy.

    Comprei os Le Papa Terrible do Jodorowsky e aquilo é mauzinho, parece escrito por um amador viciado em pornos e alcool.

    Quando ele é bom é bom mas quando é mau é mesmo mau.

    O Barracuda é uma história de piratas para adultos.

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  2. Confesso ser complicado decidir se adquiro obras que já li no original e em digital. No entanto, sabendo que é terrivel para uma editora (sobretudo pequena e recente) editar e não vender, e tentando recompensar o risco tomado de editar FB quando o mercado tem (aparentemente) sido orientado noutro sentido, irei adquirir tanto este como sobretudo o Undertaker.

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