02/10/2020

Andanças e confissões de um homem em pijama

Ganhar consciência


Compreendo aqueles que olham para as 'crónicas em pijama' de Paco Roca como das suas obras menos interessante e admito até que - no presente caso - possam questionar se algumas das sequências de duas páginas que integram este livro não estão mais próximas do texto ilustrado do que da banda desenhada propriamente dita.

No entanto, a principal diferença entre este livro e o anterior é a (aparente) tomada de consciência do autor perante o mundo que o rodeia, revelada num certo afastamento do seu umbigo e em narrativas mais centradas nos problemas que afectam o nosso mundo.

Livro que, escrevo em jeito de aparte, pode(ria) ser dividido em três grandes capítulos: as anedotas quotidianas de Paco Roca; as narrativas em tom de denúncia e a (bela, digo já) história final.

À luz do escrito acima, este Andanças e confissões de um homem em pijama abre no mesmo tom do anterior Memórias de um Homem em Piajama. No meu caso particular, possivelmente também porque partilho algumas das suas manias e memórias - e fruto igualmente de ter tido a oportunidade de o traduzir - são estas "pequenas" histórias, mais centradas no quotidiano de Paco Roca, que, graças ao humor desarmante que as condimentam, melhor dispõem o leitor e cumprem o propósito de seguirmos as suas obsessões e vivências... em pijama.

Mas, aos poucos, o presente Paco Roca, revela-se um autor mais distante de si próprio e das suas obsessões e vivências, e mais preocupado com o mundo ao seu redor. A cooperação internacional, a indústria farmacêutica, as operadoras de telecomunicações ou os bancos são alguns dos seus alvos em narrativas mais pesadas, de tom acusatório, com excesso de texto, repletas de dados oficiais, que condicionam sensivelmente o ritmo de leitura e prefiguram, quase todas, o tal texto ilustrado em lugar de uma narrativa sequencial.

Aceito - não tenho alternativa... - as preocupações socais do autor e acredito que utilizar a BD para os denunciar, em revistas de grande tiragem, contribua para elevar o estatuto desta arte - e também o do próprio autor.

Aceito - não tenho alternativa... - as preocupações socais do autor e acredito que utilizar a BD para os denunciar, em revistas de grande tiragem, contribua para elevar o estatuto desta arte - e também o do próprio autor.

Para lá das denúncias referidas e das tais pequenas anedotas quotidianas - de certa forma a meio caminho entre ambas - este livro possui outro tipo de histórias mais elaboradas, algumas delas belos modelos de reflexão sobre o acto criativo em si e, especialmente, sobre esta série. Um dos melhores exemplos é A voz do autor - em que o Paco Roca autor de BD se confronta com o Paco Roca personagem de BD (em pijama) e fala da forma como a criação tantas vezes se apossa do criador, embora do ponto de vista humorístico seja igualmente de destacar a (difícil) relação entre os vários "Paco Roca" das diferentes épocas, passadas e futuras, e o do presente, que encerra a primeira parte do livro e é outro belo achado.

Mas, no entanto, a verdadeira pérola de Roca - com sabor à tal 'confissão' do título - foi guardada para o fim, uma história com uma dezena de pranchas em que - atrevo-me a escrever - demonstra todo o seu talento de narrador aos quadradinhos, capaz de transmitir um misto de único de emoções, ao mesmo tempo que se expõe como nunca o fez em toda a série de O Homem em Pijama, não só pela situação que revela mas especialmente pelo momento em que ela aconteceu. Não revelo mais, convido a satisfazerem a curiosidade que voluntariamente despertei, lendo a história em causa: Como ondas em oposição de fase.


A paginação

Relativamente ao livro Memórias de um homem em pijama houve - justas - reclamações pela remontagem feita pela Levoir - com o consentimento do autor... - que destruiu a divisão natural das diversas narrativas, o que dificultou - e muito - a sua leitura compartimentada e mesmo a compreensão de algumas delas ou, pelo menos, do seu espírito original.

Neste novo volume, isso não acontece porque Paco Roca, nesta segunda vida na imprensa do seu 'homem em pijama' optou por dar títulos a cada um dos relatos, para além da própria planificação original ser diferente.

Fica a informação, para que não seja esse o motivo que afaste alguns dos potenciais leitores.


Andanças e confissões de um homem em pijama

Paco Roca

Levoir/Público

Portugal, 3 de Outubro de 2020

220 x 275 mm, 152 p., cor, capa dura

10,90 €


(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

1 comentário:

  1. Pedro, obrigado pelo aviso. Pena que a Levoir tenha 2 pesos e 2 medidas relativamente à reimpressão de volumes com erros evidentes de impressão, revisão ou layout. Pelo vistos o lobby Saramago fala mais alto.....

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