20/09/2021

Amélia, Uma história do Congo

Evolução



Se a saga (portuguesa!) Congo assenta uma anomalia evolutiva, parece inegável que em termos autorais a evolução é uma realidade
Amélia, uma história do Congo, terceiro tomo da série criada pelos irmãos Henrique e Duarte Gandum é a prova disso. Mas, ao contrário da ‘outra’, será bom que não se fique por aqui.

Vou ser sincero: li o primeiro volume, Congo: Um mundo esquecido, aquando da sua publicação e seduziu-me tão pouco que apenas folheei o segundo, Congo: No caminho das trevas. Agora, com este Amélia…, parece-me que será justo dar-lhe uma nova oportunidade, até porque a temática - aventura anacrónica com dinossauros noutras épocas, é uma daquelas porque tenho um fraquinho.

Isto não invalida que nesta terceira visita ao Congo dos irmãos Gandum, não continue - naturalmente… - presente um dos aspectos que mais me desagradou no volume inicial: a utilização de uma linguagem arcaica. Eu entendo que pretende dar mais credibilidade à época retratada - o final do século XVIII - mas, para além de ser um entrave ao ritmo de leitura, não se coaduna com o tom de aventura que predomina no livro e acaba mesmo por soar um pouco a falso devido ao recurso recorrente a palavrões e expressões fortes nos diálogos.

Em termos narrativos, Amélia… apresenta uma curiosidade: volta a evocar alguns dos momentos dos livros anteriores, agora sob o ponto de vista da ex-prostituta, ex-companheira de Afonso Ferreira (um dos protagonistas) e actualmente enfermeira na expedição de Rogério Fonseca.

Aqui chegado, um breve parêntesis para esclarecer que esta saga Congo tem por base uma expedição portuguesa àquele território belga, então um dos locais mais inexplorados e desconhecidos do mundo, onde encontrará animais pré-históricos de grande porte, vulgo dinossauros. O relato decorre entre o frémito da aventura e os choques entre os diferentes componentes da expedição, bem como da relação destes com os habitantes locais, num todo de tom trágico.

Agora, aquele artifício de centrar o relato em Amélia permite, por um lado, dar-lhe um passado e espessura, e, por outro, ajuda a credibilizar o conjunto e, de alguma forma, funciona como uma espécie de súmula do já acontecido, para ajudar a situar os leitores, especialmente os novos.

E se Amélia… se pretende um livro fechado - e é verdade que pode ser lido assim - também me parece que o conhecimento dos dois anteriores será um benefício para uma leitura mais completa e esclarecedora de alguns hiatos - que mais algumas páginas poderiam ter evitado… - que sentirá quem se acerque pela primeira vez à série - como em grande parte foi o meu caso. Apesar disso, em termos narrativos existe um bom ritmo, potenciado também pela planificação diversificada, e os diversos momentos estão bem caracterizados.

O grande salto em frente deste álbum - a tal evolução em curso… - surge, em meu entender, na parte gráfica. A opção por quatro tiras por página - em vez das duas ou três maioritariamente patentes nos álbuns anteriores - ajuda a disfarçar algumas das insuficiências do traço que ainda existem, mas é notório um maior à vontade no tratamento da figura humana, na sua representação proporcionada e na expressividade dos rostos, contribuindo este último aspecto para exponenciar os momentos de maior tensão e as diversas emoções que os participantes - e em particular Amélia - vão experimentando ao longo do livro.


Nota final

O álbum apresenta capa dura e bom papel brilhante, bem impresso, que ajuda a realçar as cores utilizadas.

Não deixa de ser estranho, no entanto, o critério de número de páginas apresentado no seu dossier de imprensa. As páginas com as pranchas da história estão numeradas da 3 à 36; contando a primeira página e o respectivo verso, teremos então as tais 36 páginas. Mesmo considerando os versos das páginas de guarda (que incluem a ficha técnica e as biografias dos autores) teríamos 38 páginas ‘úteis’. Para chegar às 44 páginas anunciadas, é necessário contar até as capas, o que não é de todo procedimento habitual neste tipo de edição cartonada. [Isso é feito, por exemplo - igualmente de forma errada em minha opinião - nas edições brasileiras dos heróis Bonelli, mais próximas do conceito de revista do que de álbum...]


Amélia, uma história do Congo
Duarte Gandum e Henrique e Gandum (argumento)
Henrique Gandum (desenho)
Ego Editora / Mudnag
Portugal, Setembro de 2021
210 x 297 mm, 36 p., cor, capa dura
15,10 €

(imagens disponibilizadas pelas editoras; clicar nesta ligação para ver outras pranchas ou nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

Sem comentários:

Enviar um comentário