27/10/2022

Lucky Luke: A arca de Rantanplan

Quando a porca torce o rabo...


Mesmo sem o mediatismo de Astérix, cada novo álbum de Lucky Luke agita o mercado de banda desenhada para lá do seu núcleo duro (cada vez mais alargado) habitual
Pessoalmente, tenho apreciado o consulado de Jul e Achdé e considero mesmo que é nele que se encontram alguns dos melhores álbuns pós-Goscinny. No entanto parece-me que - para me pôr em sintonia com a sua temática - foi desta que ‘a porca torceu o rabo’ - [ou será que, em tempos do enjoativo politicamente correcto, deveria escrever 'foi desta que a leguminosa enrolou a raiz'...?].

Reconheço - outra coisa seria difícil - que mais uma vez Jul e Achdé tentaram abordar um tema da actualidade - como Goscinny tantas vezes fez - combinando-o com a perspectiva histórica do mesmo, para originar um novo álbum do ‘cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra’.

No entanto, em Lucky Luke como noutra qualquer criação (aos quadradinhos), uma boa ideia não basta para preencher 44 pranchas e, se há história recente dele em que se sente que a meada está a ser esticada ao máximo para encher as pranchas, ela é A Arca de Rantanplan, que se arrasta penosamente sem um verdadeiro fio condutor.

Relembro a sinopse do álbum, já conhecida há meses: numa cidadezinha perdida, um cidadão luta sozinho pela protecção dos animais e uma alimentação vegetariana, mas tudo muda quando descobre ouro e um bando de ‘desperados’ decide juntar-se à sua cruzada.

Nada de novo nos nossos dias - e a sua transposição para os tempos do Oeste Selvagem até poderia ter sido uma boa ideia. Acontece que tudo se ficou pela ‘boa’ ideia, explorada até ao exagero - embora muitos dos exageros e dos extremismos mostrados estejam também cada vez mais presentes no nosso quotidiano.

A agravar a situação, algumas frases infelizes ao longo do relato levam o leitor a questionar afinal o que pretendiam Jul e Achdé, de tal forma estão longe do que seria uma abordagem equilibrada de uma temática que não é propriamente consensual, quer pelo tom (duplamente) ofensivo que assumem (à vez), quer por soarem fora do contexto, quer pelo peso dos estereótipos que sintetizam, em todos os casos longe do tom humorista que supostamente deveriam conseguir.

Do ponto de vista narrativo, os Dalton e Rantanplan passam ao lado do papel de desencadeadores de momentos de bom humor que costumam ser e os acontecimentos finais - no tiroteio… - surgem completamente deslocados num álbum de Lucky Luke pelo tom duplamente trágico e violento.

Mesmo graficamente, se Achdé ao longo dos anos tem tornado seu - e ao seu estilo - a criação de Morris - e muito bem! - neste álbum falha várias vezes ao nível das expresses faciais, tornando-o (quase de) difícil reconhecimento.

Dito isto, da leitura, no final, sobra pouco para recordar, apenas duas ou três piadas bem conseguidas e a sensação de que este foi um tiro ao lado de um cowboy que continua a exibir uma pontaria invejável - ou talvez dos seus autores, para ser mais justo.


Lucky Luke: A arca de Rantanplan
As aventuras de Lucky Luke segundo Morris #10
Jul (argumento)
Achdé (desenho)
ASA
Portugal, 21 de Outubro de 2022
227 x 298 mm, 48 p., cor, capa dura
10,90 €

(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nesta ligação para ver mais ou nas aqui reproduzidas nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

1 comentário:

  1. Este álbum divertiu-me

    E até achei que abordou o tema de forma balanceada

    Vou explorar outros desta nova dupla autoral

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