24/10/2022

Thorgal: A Selkie

Reencontros emotivos



Acredito que todos aqueles que leram séries de banda desenhada na idade certa - que não tem de ser/não é obrigatoriamente a mesma, para todos - criaram com elas laços de afectividade que resistem ao tempo e ao desenvolvimento do sentido crítico, fazendo com que cada nova leitura (inexplicavelmente…?) mantenha algo - às vezes muito - da emoção e da capacidade de maravilhar que teve da primeira vez.
Thorgal é, para mim, um desses casos.

[E felizmente não é o único!]

A Selkie, edição (tão) recente de A Seita (que ainda não chegou às livrarias, embora não vá demorar muito) comprovou-o mais uma vez.

Depois do consulado de Yves Sente, mais apostado em fazer de Jolan o herói em vez do seu progenitor, a série, com Yann, está a ‘retomar os eixos’ e Thorgal e os seus filhos - o já citado Jolan e Loba - assumem um protagonismo mais repartido, embora seja sempre o primeiro a espoletar a acção e a estar no centro dela.

Que é como quem diz, continua a viver de forma contraditória, ao querer aparentemente apostar na tranquila vida familiar mas revelando-se incapaz de resistir ao apelo da aventura consubstanciada naqueles que necessitam da sua ajuda - e ainda bem porque Aventura com A maiúsculo foi sempre um dos marcos distintivos da criação de Van Hamme e Rosinski.

Desta vez, o ponto de partida é o rapto da sua filha, pelos habitantes de uma ilha selvagem que as lendas dizem estar sob uma estranha maldição ancestral, lançada pela selkie, uma criatura mítica que controla a ilha. Na prática, em termos actuais, denominaríamos a situação como um culto de características peculiares, como Thoprgal e os seus irão descobrir.

Yann, com a mestria que se lhe reconhece, consegue uma boa combinação entre aventura em estado puro, a barbárie e a brutalidade do tempo dos vickings e um toque de sobrenatural e de fantástico, ou seja, os ingredientes que fizeram de Thorgal o sucesso que se reconhece - e que fizeram dele uma das séries a que não consigo resistir.

Quanto a Fred Vignaux, revela-se um digno sucessor do grande Rosinski, recriando no papel a época em que Thorgal vive - e os acontecimentos transcendentes que tem de enfrentar, embora muitas vezes me pareça que falte aos rostos o lado agreste e as marcas que o tempo - e os tempos - inevitavelmente deixariam.

Em compensação, por assim escrever, consegue um assinalável realismo e efeitos bem conseguidos em diversas cenas, entre as quais destacaria a que abre o álbum até ao primeiro flashback para colocar o leitor a par da base do enredo; a aparição da selkie quando a embarcação de Thorgal se aproxima da ilha maldita; e finalmente, o combate marinho de Thorgal e Jolan com… quem vocês irão descobrir!


Thorgal: A Selkie
Yann (argumento)
Fred Vignaux (desenho)
A Seita
Portugal, Outubro de 2022
215 x 285 mm, 56 p., cor, capa dura
16,00 €

(imagens disponibilizadas por A Seita; clicar nesta ligação para ver mais pranchas ou nas aqui reproduzidas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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