25/03/2026

O Guia do mau pai

Mau pai, autor delirante


Como pai, assusta-me pensar que aquilo que é narrado neste livro é verdade. Aliás, a primeira impressão que um potencial leitor tem, antes de o abrir e começar a ler, é que houve um erro na capa do livro e o título deveria ser O O Guia do MEU pai. Mas não, a proposta da Devir para o dia do progenitor que passou há dias é mesmo O Guia do mau pai, de Guy Delisle, pai de duas crianças em idade de escolaridade básica que, num registo auto-biográfico com muito de irónico, ele trata com um misto de afecto, impaciência e preguiça.

Por isso, como leitor - e pai - diverti-me imenso a ver a forma como o autor partiu de momentos banais do quotidiano de quem tem crianças pequenas, para os subverter em situações mirabolantes e absurdas, narradas em histórias curtas, de traço minimalista, mas de grande legibilidade e dinamismo.

Exemplos? A fada dos dentes - que em França é um ratinho - os atrasos nas chegadas à escola, os trabalhos de casa feitos à última da hora, a utilização de comidas preferidas e a abolição de tarefas para ganhar pontos na preferência dos filhos em relação à mãe, o ajuste de contas personalizado com os pequenos bullies escolares, a descoberta dos primeiros palavrões, são momentos em que todos nos reconhecemos, mas em que Delisle assume o protagonismo e os transforma em puro delírio, com respostas nada pedagógicas, promessas frustradas ou inversão das realidades. À imagem, aliás, do método que já tinha utilizado nos seus livros de viagem como Pyongyang, Shenzhen, Crónicas da Birmânia e Crónicas de Jerusalém, sobre as estadias profissionais que teve naqueles lugares. No caso presente, o aproximar das situações a realidades que os pais conhecem bem, é mais um ponto a favor da obra.

Retrato provocador e divertido do pai que pontualmente fomos, mas que em muitas situações gostaríamos de ter tido a coragem - ou a loucura - de ter sido, embora tal nunca nos tenha passado pela cabeça, O Guia do mau pai, não servindo de orientação, a não ser pelo exemplo contrário, é indiscutivelmente uma leitura muito divertida não só pelo nonsense que o autor aplica generosamente às situações, mas pelo desfecho inesperado que consegue aplicar aos pequenos momentos do dia-a-dia.

...que não deixam de ser momentos especiais, que devem ser bem aproveitados e guradados na memória dos pais babados porque não duram para sempre, como Delisle magnificamente exemplifica no relato que fecha o livro.


O Guia do mau pai
Guy Delisle
Devir
Portugal, Março de 2026
170 x 240 mm, 302 p., pb, capa dura
25,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 13 de Março de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Devir; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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