O bom sabor da leitura de conforto
Tal
como existe comida de conforto - a das nossas mães, das nossas avós
à cabeça… - existe leitura de conforto, aquelas que nos deixam de
bem com a vida, a acreditar nos homens, a crer em utopias e na
vitória dos sonhos sobre ’o que tem de ser’.
Ulysse
& Cyrano,
mais uma obra justamente emoldurada com vários prémios, que a ASA
disponibilizou
em português logo
em Janeiro é
mais um exemplo disso. Saboroso.
A acção decorre numa França pós-Segunda Guerra Mundial, com contas por ajustar com os que, de alguma forma, cooperaram com o invasor inimigo. Os colaboracionistas.
O pai de Ulysse, dono da maior cimenteira francesa é um deles. Continuador dedicado da herança de família, aspira ao mesmo para o filho, independentemente do que este possa querer ou ansiar. O negócio é a sua vida, esquecendo no percurso o que a vida deve ser. A família.
Distraído com a pintura, Ulysse pena para se preparar para os exames que lhe permitirão continuar a estudar e tirar o curso que o pai projecta, mas o acaso tem outros planos. Um processo contra o pai, obriga-o a ir com a mãe para uma casa na província, onde conhecerá Cyrano, um cozinheiro caído em desgraça por razões que o relato irá esclarecer. A falta de apetite da mãe, desde sempre submissa ao marido, levará o jovem Ulysse para a cozinha de Cyrano, onde descobrirá a sua verdadeira vocação. O que lhe dá prazer.
Mas, nos livros como na vida real que tantas vezes espelham, seguir os sonhos nunca é fácil, entre resistências internas e oposição externa, a reprovação da sociedade e o medo de errar ou desiludir os que se amam.
Entre iguarias reconfortantes ou a nova cozinha, o crescimento a que o tomar de decisões obriga, novas relações ou o retomar das antigas, a busca interior e a transmissão de saberes, Stéphane Servain e Xavier Dorison constroem uma epopeia gastronómica, consistente e credível, que seduz primeiro e apaixona depois, obrigando a voltar página após página, entre avanços e recuos, entre sucessos e fracassos, entre o acreditar e a mais profunda descrença, numa daquelas histórias que surpreende sucessivamente sem nunca cair no facilitismo. Que não se esquecem.
O traço de Antoine Cristau, expressivo, dinâmico quanto baste, de planificação variada e servido maioritariamente por cores quentes e aconchegantes, dá o condimento adequado a uma narrativa que se degusta com tempo, calma e prazer, para sentir todas as suas texturas e sabores.
Ulysse
& Cyrano
Stéphane
Servain
e
Xavier
Dorison (argumento)
Antoine
Cristau (desenho e cor)
ASA
Portugal,
Janeiro de 2025
240
x 318 mm, 184
p., cor,
capa dura
30,90
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 1o de Abril de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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