02/07/2026

Camões (Re)visitado

A leitura 'que me tem cativo




Sim, eu sei, já o escrevi algumas vezes, mas as surpresas que a leitura me continua a proporcionar cada vez me fazem gostar mais de ler.
A mais recente - pelo menos em termos de escrita, aqui - é este Camões (Re)visitado, cuja edição passou despercebida.

Muito possivelmente porque, neste país tão pequeno mas também tão dividido, esta edição é madeirense, da Sétima Dimensão, apoiada pelo município do Funchal. O seu propósito foi assinalar os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, mas numa perspectiva dinâmica e renovada que permitisse aos jovens (re)visitá-lo.

E, antes que comecem as vozes a apontar o dedo a ‘mais uma obra chata, histórica e didáctica’, antecipando o que não conhecem, esclareço já que a surpresa que apontei acima, não tem a ver com a edição em si, mas sim com a forma como ela está construída.


O protagonista - co-protagonista, aliás - é Martim, um madeirense que veio ao continente propor um projecto que considerava fantástico. A recusa, mais do que isso, a forma como foi humilhado e até gozado, levou-o a desacreditar de tudo e principalmente de si mesmo. É aí que surge Camões - a sua alma ou o seu fantasma? - ainda presente, aqui e ali, na Lisboa contemporânea, para tentar animar o jovem e levá-lo a reencontrar-se.

Os diálogos que se vão estabelecer ao longo de dias, em diversos momentos, vão traçando a biografia do poeta, cruzando-a com os momentos mais marcantes da sua obra, num constante saltitar entre o presente do jovem e o passado do poeta. As citações deste, vão surgindo de forma assertiva e oportuna, num todo que, assente em diversos registos gráficos - assinados alternadamente por Francisco Branco, Roberto Macedo Alves e Válter de Sousa - conforme as épocas ou as referências literárias, acaba por se desenrolar de forma agradável, num bom trabalho do também argumentista Macedo Alves. É verdade que existem algumas notas mais ingénuas aqui e ali, principalmente no que diz respeito à relação em embrião entre Martim e Leonor, igualmente ‘fermosa’, mas não ‘descalça’, mas convém não esquecer que esta é uma proposta que aponta para um público juvenil, embora todos possamos desfrutar da sua leitura.


Camões (Re)visitado
Roberto Macedo Alves (argumento)
Francisco Branco, Roberto Macedo Alves e Válter de Sousa (desenho)
Sétima Dimensão, com o apoio do município do Funchal
Portugal, Abril de 2025
150 x 210 mm, 98 p., cor, capa mole
15,00 €

(clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

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