27/07/2026

O grande poder do Chninkel

Uma leitura subversiva de deuses e religiosos


Há obras intemporais, que a cada releitura revelam novos aspectos, enquanto, em simultâneo, mantêm a actualidade e a frescura de quando foram criadas. É o caso de O grande poder do Chninkel, publicada originalmente na revista (À Suivre), em 1988, o que permitiu libertar-se do espartilho das 48 páginas do formato tradicional franco-belga e ser um romance gráfico antes do tempo, que a Arte de Autor finalmente edita em português no preto e branco em que foi concebida por Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski, os autores de Thorgal.

E esse é um dos grandes destaques, o sublime preto e branco de Rosinski, cujo pormenor raia a obsessão, em especial nas épicas cenas de batalha em que cada traço, cada sombra, cada mancha negra, tem a sua razão de existir, ou nas cenas noturnas em que o branco, o cinza e o negro se combinam num contraste esplendoroso.

A história decorre no mundo de Daar, onde as hordas de três senhores imortais, cuja sede de sangue e de massacre parece jamais ter fim, combatem até à morte, ciclicamente, sem olhar a quem está do outro lado da espada, das flechas, das garras ou dos dentes.

É neste contexto que vai surgir J'on, um pequeno chninkel, escravo de um do senhores, que milagrosamente escapou à morte durante uma das batalhas. Só, num terreno devastado e pejado de cadáveres, pela primeira vez na vida livre mas sem saber o que fazer com essa liberdade, tem a visão de um enorme paralelepípedo, que se declara como o Senhor Criador dos Mundos que saturado de tantas mortes, lhe confia o seu grande poder, encarregando-o de uma missão: acabar com a guerra naquele mundo.

Reconhecido como o Escolhido das antigas lendas, enviado para libertar o povo dos chninkel da opressão e da escravatura, irá assumir a sua tarefa de modo peculiar, mais tentado em aproveitar-se da situação, do que em cumprir a missão que lhe foi confiada em prol dos outros.

Num entrecruzar de elementos ficcionais inovadores com aspectos bem reconhecíveis da religião cristã, como o sacrifício ou o perdão, e uma leitura subversiva da mensagem bíblica central, Jean Van Hamme desenvolve uma alegoria sarcástica e provocadora, que questiona os deuses e os seus servos, até um final inesperado que nos obriga a colocar tudo em questão, tenhamos fé ou sejamos ateus.


O grande poder do Chninkel
Jean Van Hamme (argumento)
Grzegorz Rosinski (desenho)
Arte de Autor
Portugal, Setembro de 2025
235 x 310 mm, 184 p., pb, capa dura
31,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 17 de Julho de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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