14/08/2026

Julia Korbik [e Julia Bernhard]: “Foi um desafio mostrar o pensamento de Simone de Beauvoir”




A presença de Julia Korbik e Julia Bernhard, como convidadas do Maia BD 2026, foi o pretexto para uma conversa sobre o seu livro Simone de Beauvoir - Quero tudo da vida (Iguana, 2026).
Uma versão condensada foi publicada na edição impressa do Jornal de Notícias de 27 de Julho de 2026 e está também disponível online. A seguir, encontram a versão integral.


As Leituras do Pedro - Porque escolheram Simone de Beauvoir para esta biografia?

Julia Korbik - Eu já tinha publicado uma biografia sobre Simone de Beauvoir, um livro. Porque o fiz? Porque me sinto fascinada por Simone de Beauvoir desde os 18 anos, quando a descobri. E para mim foi realmente um despertar porque acho que foi por causa de Simone de Beauvoir que me tornei feminista. E acho que ela me mostrou que podemos sempre escolher o nosso próprio caminho na vida. Portanto, ela mostrou-me que podemos pensar por nós próprios e tomar as nossas próprias decisões, e acho que isso realmente me impressionou.

Eu também estava apaixonada pela França e pela língua francesa, tinha a impressão de que Simone de Beauvoir era uma figura maior do que a vida, estava como num pedestal e as pessoas tinham um pouco de medo dela. Eu conhecia muitas pessoas que diziam: “Ah, bem, sabes, eu devia ler alguma coisa de Simone de Beauvoir mas é muito complicado...” e ”Sim, O Segundo Sexo, sei que é um clássico mas é tão grande e eu não sei…”

Eu tinha a impressão de que ela estava algures no passado e as pessoas tinham medo de se aproximar dela. Por isso, quis escrever um livro que tornasse fácil aproximarmo-nos dela e que também fosse divertido e a mostrasse como uma pessoa. Acho que muitas vezes as pessoas só a viam como a parceira de Jean-Paul Sartre ou como uma feminista rígida. E eu queria mostrá-la como uma mulher que amou, e que viveu, e que também foi uma grande autora, não apenas uma grande autora feminista. Foi por isso que o escrevi.


As Leituras do Pedro - E a BD?

Julia Korbik - Foi a minha editora teve a ideia de o transformar numa banda desenhada, e foi aí que a Julia entrou. A outra Julia (risos), sim.


As Leituras do Pedro - esta foi a sua primeira experiência em banda desenhada?

Julia Korbik - Sim. Era importante para mim ter alguém responsável pelo desenho que já tivesse publicado uma banda desenhada. Pensei: bem, se sou uma principiante absoluta, talvez a outra pessoa devesse ter alguma experiência. E eu tinha lido a primeira banda desenhada da Julia, que ela escreveu e desenhou, e fiquei muito impressionada. E gostei do estilo porque achei que seria muito interessante retratar alguém como Simone de Beauvoir, que está no passado para muitas pessoas, com este estilo de desenho muito moderno. Eu e a minha editora abordámos a Julia, ela quis fazê-lo e isso foi ótimo.


As Leituras do Pedro - Já fez outras bandas desenhadas?

Julia Bernhard - Sim, sim, já fiz várias bandas desenhadas. Participei em muitas antologias na Alemanha. E também fiz um grande livro antes deste, chama-se Wie gut, dass wir darüber geredet haben (Que bom que falámos sobre isto). Foi o meu romance gráfico de estreia e ganhou o Prémio Max e Moritz, um dos mais prestigiados prémios alemães de BD, na categoria de melhor estreia em banda desenhada, em 2020.

Actualmente estou a trabalhar na minha segunda obra.


As Leituras do Pedro - Qual foi o vosso método de trabalho? Como escolheram a aparência que Simone de Beauvoir teria?

Julia Bernhard - Acho que tive muita liberdade de escolha por parte da editora. Deixaram-nos decidir muitas coisas sozinha, por isso eu e a Julia falámos sobre como gostaríamos que o livro fosse visualmente. Mas havia alguns parâmetros já definidos: que seria a preto e branco e uma cor. E o estilo é muito o meu estilo daquela altura [a edição original é de 2023], portanto coerente com o trabalho que vinha a fazer.

Basicamente, peguei na Simone e coloquei-a no meu próprio universo visual


As Leituras do Pedro - Como trabalharam juntas?

Julia Korbik - Foi muito interessante e muito divertido porque, como disse, nunca tinha escrito uma banda desenhada. Sabia que não queria fazer aquela coisa típica: há tipo três imagens e este é o texto. Portanto, eu escrevia uma cena e descrevia o cenário, mas falava sempre com a Julia porque também queria que ela tivesse liberdade. Não queria que fosse demasiado restritivo porque ela é uma artista e não queria impor a minha visão.

Ela recebia a cena ou a cenografia e desenvolvia-a. E às vezes ela tinha ótimas ideias nas quais eu não tinha pensado e ficava ainda mais engraçado do que eu tinha antecipado. E portanto, sim, acho que foi realmente uma colaboração. Não era apenas eu a dizer-lhe o que fazer, ela dizia “Não, vou fazê-lo assim”, e conversávamos muito sobre isso. Acho que ajudou termos o mesmo tipo de humor, isso foi muito importante para o livro.

E também o nosso amor por cães, há muitos cães no livro! (risos)

Julia Bernhard - Sim, concordo totalmente, totalmente. Ajudou-me muito que, enquanto trabalhava, havia muitas questões relacionadas com os visuais ou coisas que a Simone fazia. E eu podia sempre perguntar à Julia porque ela é como uma biblioteca viva da Simone de Beauvoir. (risos) Foi muito divertido trabalhar com ela porque, como ela disse, nunca senti que ela estivesse apenas a dizer-me o que fazer. Ela tinha uma abordagem muito boa... era como trabalhar com alguém que estava a fazer um filme. Ela tinha uma abordagem muito cinematográfica da escrita, portanto foi muito divertido para mim.


As Leituras do Pedro - Podemos dizer que mais do que uma biografia, este é um livro de ideias?

Julia Korbik - Esperemos que sim. Isso foi realmente um desafio, transmitir o processo de pensamento e de ideias e da filosofia de Simone de Beauvoir. Foi algo de que falámos muito com o nosso editor, como é que tornamos o pensamento visualmente interessante? Tivemos de inventar muitas cenas em que a Simone de Beauvoir andava por aí, olhava para coisas e tinha ideias. Mas para nós era realmente importante apresentá-la também como uma pensadora e mostrar como ela se desenvolveu enquanto tal.

Claro que ela não nasceu assim, foi um processo e teve diferentes influências. Queríamos mostrá-la não apenas na companhia dos outros mas também na sua própria companhia, enquanto desenvolvia as suas ideias e também a sua própria identidade.

Por isso, sim, espero realmente que este livro torne mais acessível compreender a forma como Simone de Beauvoir pensava e também a sua filosofia, porque acho que o existencialismo pode ser realmente complicado. Mas foi realmente interessante, foi um desafio mostrar o pensamento dela.

Julia Bernhard - Sim, e torná-la mais acessível. Porque, como a Julia disse, acho que há muitas pessoas que não têm realmente coragem de entrar em contacto com a filosofia dela. Porf isso, para nós era muito importante mostrar que ela era uma pessoa como qualquer outra e que era uma personagem tridimensional. E sim, o nosso objetivo era torná-la mais acessível e fazer com que as pessoas percam o medo que potencialmente possam ter, porque ela é uma figura icónica da história cultural.


As Leituras do Pedro - Se tivessem de escolher dois ou três momentos da vida de Simone que a definam, quais seriam?

Julia Korbik - Essa é uma boa pergunta. Acho que conhecer Sartre foi muito importante, claro, porque ele foi a primeira pessoa que realmente a desafiou intelectualmente... e que lhe disse: “Podes fazer melhor”. Penso que isso foi realmente importante, porque ela queria ser desafiada.

Ooutro grande momento foi quando a sua melhor amiga de infância, da juventude, Zaza, morreu. O primeiro livro das suas memórias termina com essa morte, porque Zaza era muito importante para ela. E durante algum tempo parecia sempre que Zaza era mais livre do que Simone de Beauvoir e no final não foi esse o caso. Simone de Beauvoir apresentou a situação como se Zaza tivesse morrido por causa da pressão do meio em que cresceu. E para Simone de Beauvoir isso foi realmente decisivo porque lhe mostrou que queria seguir outro caminho, a partir daquele momento soube que para ela não havia regresso, queria ser livre.

Quanto a um terceiro momento, talvez depois da morte de Sartre, porque para a Simone foi importante tornar-se parte da vaga de feminismo nos anos 1970, em França. Ela já era, uma mulher mais velha, sim, mas as feministas mais jovens estavam realmente interessadas nela o que levou a uma redescoberta de O Segundo Sexo. Para ela foi interessante ver como as mulheres mais jovens, as feministas mais jovens discutiam as suas ideias, e isso fez com que se sentisse bastante revitalizada.

E toda a luta pelo direito ao aborto, em que esteve muito envolvida, para ela foi outro grande momento, perceber que podia fazer parte de um movimento, usar a sua fama para fazer avançar temas feministas e apoiar outras mulheres.


As Leituras do Pedro - Que mensagem querem transmitir com este livro?

Julia Korbik - Acho que a mensagem mais importante é que nunca temos de aceitar ficar presos às convenções da sociedade, que existe sempre a opção de escolher a liberdade em vez das expectativas que outras pessoas têm sobre nós. Acho que essa seria a principal lição do trabalho dela para mim.

Julia Bernhard - Sim, e também acho que, já que falámos de existencialismo, gosto muito desta ideia que ela apresentou de que podemos sempre voltar a escolher quem queremos ser. Portanto não temos de ser determinados pela sociedade ou pelas expectativas ou por outros factores. Quero dizer, claro que ela escreveu muito sobre feminismo, portanto sabia que género, sexo, a forma como crescemos, racismo e coisas assim, não são algo sobre o qual possamos simplesmente dizer “Oh, isso não importa”, claro que importa. Mas, sim, cabe-nos decidir o que fazer com a nossa vida e podemos escolher uma e outra vez e podemos transformar-nos nas pessoas que queremos ser.

Mas também acho que quando se trata de filosofia e feminismo, o que gostei foi que, a certa altura, ela percebeu que “Eu só sou livre se todas as outras pessoas também forem livres.” Portanto não se trata de “Bem, sabem, eu estou bem portanto isso é ótimo”, mas também das outras pessoas e da luta pela liberdade das outras pessoas, portanto é uma ideia coletiva e eu gosto muito disso nela.


As Leituras do Pedro - Quais foram as maiores dificuldades para fazer o livro?Julia Korbik - Oh, acho que foi a pressão do tempo. A nossa editora tinha ideias muito interessantes sobre a rapidez com que isto podia ser feito. Meio ano. E depois tivemos de negociar um pouco porque era absolutamente impossível. Quero dizer, claro que eu podia escrevê-lo muito rapidamente porque já tinha escrito o outro livro, portanto isso não era o problema. Mas a Julia não pode desenhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, quer dizer, isso é uma loucura. Portanto, foi algo a que, logo no início, tivemos de bater o pé e dizer “Não”.

Outra dificuldade foi decidir o que devia entrar no livro, porque havia tanta coisa que podia estar nele e escrevi muito mais do que aquilo que está no livro. E havia algumas cenas de que eu gostava mesmo muito, mas tivemos de matar os nossos queridos. Simone de Beauvoir a falar com um padre ou algo assim, era realmente bom; é sempre difícil tirar coisas. Mas acho que foi para melhor, porque caso contrário o livro seria assim [faz o gesto de um livro com um palmo de altuera], ninguém o leria.

Julia Bernhard - A minha maior dificuldade foi aproximar-me dela, por ser tão icónica. E eu tinha sempre na cabeça que haveria pessoas que provavelmente ficariam ofendidas com a minha versão da Simone de Beauvoir, porque há sempre pessoas ofendidas, independentemente do que se faz. Mas quando se trabalha com uma pessoa tão icónica, há sempre esse risco. A certa altura tive simplesmente de decidir estar disposta a aceitá-lo.

Outra questão foi desenhá-la à medida que envelhecia e ser muito realista sobre isso, porque acho importante não mostrar sempre apenas uma versão idealizada das mulheres, mas mostrá-la no processo de envelhecimento. Porque aparentemente envelheceu! Achei curioso que, quando estava a fazer a pesquisa de fotografias dela, há sempre estas imagens com citações, e aí ela aparece sempre muito jovem, tipo nos seus 20 ou 30 anos. E achei muito bom que o enquadramento que a Julia escolheu fosse um em que ela já estava realmente perto da morte, não estava? Sim, ela era velha. Ela era realmente velha e achei bom mostrar uma mulher mais velha em toda a sua tridimensionalidade, também um pouco rabugenta. Sim, uma velha rabugenta! E gostei disso. Isso torna-a mais humana ou real. Mais real, sim.


As Leituras do Pedro - Voltaram a trabalhar juntas depois disto?

Julia Bernhard - Acho que gostaríamos... o obstáculo é um pouco a questão financeira porque custa bastante dinheiro fazer livros destes, porque,,claro, queremos receber dinheiro suficiente. Não sei, eu estaria aberta a isso. Gostaria muito. Basta ligarem-me.


As Leituras do Pedro - Quais são as vossas expectativas em relação ao Maia BD?

Julia Korbik - Na verdade não tinha expectativas, só pensava algo do género “Bem, vamos ver o que acontece”. Mas tivemos uma noite muito agradável ontem com alguns dos outros artistas. A Julia está mais ligada ao mundo da novela gráfica e da banda desenhada, eu estou mais no mundo literário, mas já foi muito inspirador conhecer estes artistas e ver as suas obras, as suas bandas desenhadas. Para mim é uma oportunidade de encontrar alguns ótimos livros que possa levar para casa, ou comprá-los na Alemanha e descobri-los.

Julia Bernhard - Sim, para mim também de certa forma. Acho sempre muito agradável conhecer colegas e inspirar-me no trabalho deles, isso é absolutamente incrível. Estou realmente impressionada com todas as pessoas que vieram e com as obras que estão a ser mostradas, portanto é algo humilde e agradável conhecer as outras pessoas.


(versão integral da entrevista publicada no Jornal de Notícias de 27 de Julho de 2026 e disponível também online; imagens disponibilizadas pela Iguana; clicar nelas e nas fotos para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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