O peso de ser um herói solitário
Na
busca a um tempo nostálgica e interesseira de fazer reviver os
heróis, as editoras têm seguido duas vias: a continuação ad
aeternum das
aventuras por novos criadores ou a aposta nas chamadas ‘versões de
autor’ que dão maior liberdade e abordagens mais interessantes e
desafiadoras.
Em
Lucky Luke, as propostas autorais têm sido bem conseguidas, optando
os seus criadores por releituras humorísticas que satirizam a
personagem, os coadjuvantes, as situações típicas e os
estereótipos.
Com uma exceção, as assinadas por Mathieu Bonhomme que, não abdicando totalmente da componente humorística, tem assumido uma via mais séria e realista. O que nos leva a pensar como uma personagem clássica, que todos reconhecemos, potencia aproximações tão diversificadas e até afastadas do paradigma inicial sem, no entanto, colocar em causa o espírito original nem os diferentes aspectos que nortearam um percurso de décadas.
A longa marcha de Lucky Luke, o terceiro álbum da colecção LuckyLuke visto por… assinado por Bonhomme - depois do sublime O homem que matou Lucky Luke e do muito aconselhável Procura-se Lucky Luke - e que A Seita já disponibilizou em português, vem confirmar os pressupostos atrás descritos. Com um fundo ecológico, que lhe confere uma certa actualidade, parte da busca e posterior proteção de um rapaz branco, encontrado e criado por índios, que é, na verdade, o herdeiro de um grande império económico ou, segundo o seu tio, o único estorvo que o impede de se tornar o dono absoluto de todo o que o falecido irmão deixou.
O toque da atualidade vai além da questão ecológica, pois o vilão da história, rico e poderoso, dá pelo nome de Cramp e está disposto a tudo, até a anexar o Canadá, se tal for necessário para concretizar os seus intentos...
Apostado em levar o jovem até um local onde a lei o possa proteger, num longo percurso entre neves e gelos - a lembrar o título homónimo de Blueberry… - pontuado por (outras9)referências de vário tipo, Lucky Luke vê-se confrontado pelo próprio miúdo e também pelas suas memórias, questionando as escolhas de vida que o levaram a uma solidão permanente e ao fardo de ser um ‘herói’ a tempo inteiro.
Este tom mais sério, aproximam o relato mais do western puro e duro tradicional do que da caricatura que dele Lucky Luke sempre fez, com especial destaque para o período em que os argumentos foram escritos pelo genial René Goscinny.
A
longa marcha de Lucky Luke
Matthieu
Bonhomme
A
Seita
Portugal,
Abril de 2026
240
x 320 mm, 88
p., cor,
capa dura
18,99
€
(versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 5 de Setembro de 2026 e na página online no dia 12 do mesmo mês; imagens disponibilizadas por A Seita; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



Este album fez-me recordar o excelente trabalho de Duchâteau e Vance no clássico do personagem Ringo: Três Bandidos na Neve. Vertente mais realista, pois claro.
ResponderEliminar...que é apenas o início de uma história mais longa, que nunca foi publicada em álbum em Portugal.
ResponderEliminarBoas leituras!