A (auto)biografia só tem interesse quando...
“E
estou mais do que farto do ginseng.”
desabafo de Phil Thompson in Ginseng
Roots
E
confesso
que eu também. Eu também fiquei farto do ginseng.
Escrevi
já várias vezes que a (auto)biografia só tem interesse quando a
vida do (auto)biografado é relevante ou quando ela serve para
destacar outros aspectos socialmente marcantes.
Craig
Thompson já o fez. E muito bem. Desta vez - na minha óptica - não
o conseguiu, de certa forma, passou ao lado.
Tenho Blankets, como um dos livros da minha vida, pela forma absolutamente sincera como o autor se expõe e expõe a origem de todos os seus traumas. Considerado por muitos superior a esta obra, Habibi - outra excelente leitura - perde, em minha opinião, por ser demasiado cerebral, quando a primeira era emoção pura.
Agora,
com este Ginseng Roots, senti Thompson - que há muito não
publicava nada - preso à obrigação de fazer mais uma ‘grande’
o0bra-prima. E o ‘grande’ deve ser entendido (também) no sentido
literal, do grande número de páginas.
Para isso, regressou
onde já foi (in)feliz - ao Wisconsin da sua infância tanto quanto
às suas memórias mais antigas - para tentar reviver o sucesso de
Blankets. Um dos aspectos que o marcou nos seus primeiros anos
de adolescência, ficamos a saber agora, foi o trabalho duro que ele
e os irmãos faziam nos campos de ginseng que os seus pais
cultivavam. E se este aspecto poderia assumir alguma importância no
contexto da formação e crescimento do autor - e dar sentido às
analogias que vai construindo - a verdade é que a certo ponto parece
tornar-se quase uma obsessão, mergulhando(-nos, leitores, com ele)
nos múltiplos aspectos do seu desenvolvimento enquanto raiz, na sua
classificação em função da origem, na sua utilização, na
comparação entre as raízes americanas e as chinesas, em aspectos
técnicos, na sua comercialização, na visita à China para explorar
(mais…) o tema… numa quase tese sobre o ginseng que, para mim - e
para quantos mais leitores? - acaba por se revelar excessiva e até
maçadora, obrigando a aproveitar, numa leitura selectiva, os
momentos (mais interessantes) em que Craig fala de si e do irmão - e
da sua intensa proximidade - da relação com os pais ou dos
sentimentos de culpa que ainda carrega, das dificuldades de criação
que o atormentavam há anos, antes deste Ginseng Roots, que
iam bem para lá dos problemas físicos na mão dominante, com que
desenha.
Não está em causa a capacidade narrativa de Thompson, a expressividade do seu desenho ou a forma conseguida como utiliza sem parcimónia uma paleta de tons vermelhos para dar mais vida às pranchas, mas sim o modo como deixou que o acessório tomasse o lugar do principal. Escrevo eu, que não vivi o que ele viveu, nem senti o que ele sentiu, mas, citando-me “a (auto)biografia só tem interesse quando...”
Sinto que poderei estar a ir contra a corrente - tenho-o sentido recorrentemente em anos recentes, com diversas obras, que (quase) todos louvam, mas com que não consigo identificar-me - mas a verdade é que, quando deparei com a citação do seu irmão Phil que reproduzi acima, senti que ele expressava perfeitamente, algo que já se acumulara em mim ao longo da leitura.
Nota final
Craig Thompson vai estar presente no Amadora BD, no próximo fim-de-semana, nos dias 24 e 25 de Outubro.
Ginseng
Roots
Craig
Thompson
ASA
Portugal,
Maio
de
2026
180
x
242
mm, 448
p., pb
e vermelho,
capa dura
33,90
€
(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



É difícil conceber uma obra-prima como o Blankets e depois tentar criar algo de diferente e com a mesma qualidade, o Habibi também era bom mas desgastante, talvez eu não tenha o background cultural certo, este Ginseng ficou a meio, tive de reler o Asterios Polyp do Mazzucchelli para tirar o mau gosto da boca e fiquei contente por o revisitar, continua tão excelente como sempre, isto para comparar biografias gráficas com centenas de páginas, ficionadas ou não.
ResponderEliminarOutras boas auto(biografias) gráficas: Persepolis, Maus, Daytripper (um bocado sobrevalorizado ao meu ver) mas acho que nos últimos 10-15 anos não saiu algo que rivalizasse, isto é, biografias estimulantes, originais, com bom ritmo e que agarrassem o leitor fazendo-o pensar.
ResponderEliminar“Raízes de Ginseng” foi lancado inicialmente em 12 fascículos pela Uncivilized Comics, entre 2019 e 2023. A forma mais “confortável” de ler a obra, digo eu…
ResponderEliminarFaz sentido, aos poucos, de maneira doseada, para assimilar com calma, assim sim.
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