28/01/2011

Au Nom du Fils (Ciudad Perdida)

Première Partie
Serge Perrotin (argumento)
Clément Belin (desenho)
Futuropolis (França, 5 de Janeiro de 2011)
215 x 290 mm, 48 p., cor, cartonado, 15,00 €

Resumo
Trabalhador num estaleiro naval, Michel Garandeau ouve na rádio a notícia de que uma das organizações terroristas da Colômbia acaba de raptar um grupo de turistas ocasionais. Exactamente na zona onde o seu filho Étienne esteva…
Chegado a casa, o cerco (o circo…) montado pelos media dá razão aos seus piores temores. E, face aos parcos esclarecimentos do Ministérios dos Assuntos Estrangeiros, decide deixar tudo e partir à procura do seu filho.

Desenvolvimento
Mas desenganem-se desde já aqueles que adivinham no resumo que atrás ficou escrito uma grande aventura no melhor estilo franco belga, a la Greg ou a la Charlier. Apesar do resumo poder dar essa ideia, este é antes de mais um relato humano, até intimista. Sobre amor paternal, laços familiares, sentimentos, a própria concepção do mundo (do mundo de Garandeau, pelo menos…).
Desde logo, porque Garandeau não é um aventureiro de chapéu à cowboy na cabeça e chicote ou pistola à cinta, é sim um homem simples, que nunca se afastou mais de umas (poucas) dezenas de quilómetros da sua cidade natal, nunca andou de avião e não fala línguas estrangeiras. Um homem de trabalho, com uma vida dedicada ao estaleiro onde passa os dias e à família (a mulher, o filho, Étienne), que por isso, também por isso, não pode deixar de atender ao apelo urgente que sente dentro de si de deixar tudo e partir em busca do filho.
Mesmo que, nunca tenha compreendido o desejo de viajar de Étienne, agora com 23 anos - que facilmente se percebe ser o seu) que, após concluir os estudos feitos em paralelo com o seu trabalho no estaleiro, decidiu gastar os cinco anos de salário recebidos num longo périplo de um ano pelas terras da América do Sul com que sonha desde a infância, desde a(s muitas re) leitura(s) de… «Tintin no Templo do Sol».
Parte, apesar da (ou devido à?) pressão dos media, sempre ávidos de situações trágicas e pungentes, que rejeita; parte, principalmente, porque compreende ocas e vazias as falinhas mansas e lindas palavras que as autoridades francesas lhe dizem.
Por tudo isso, ainda, Garandeau parte sozinho, entregue a si próprio – à sua ignorância, à sua simplicidade, à sua crença nos outros (e são vários aqueles que o vão ajudar no início – quase tantos quantos os que se vão aproveitar dele…) – narrando nas notas que vai escrevendo, à mulher e a nós, leitores, o que lhe vai acontecendo, as situações por que vai passando. De forma simples, às vezes ingénua, às vezes ele próprio não compreendo (toda a dimensão, todas as razões, todas as implicações do que lhe acontece).
Nessa busca, sem dúvida dolorosa, também iniciática, vai descobrindo um mundo diferente que desconhecia (até existir), percebendo um pouco - percebendo aos poucos - o que moveu o seu filho, as razões da sua ida, da sua viagem. Na sua peugada, percorre os mesmos caminhos, cruza-se com algumas das mesmas pessoas, estabelece aos poucos o seu itinerário, ansiando estar assim a aproximar-se de Étienne.
Ao longo dessa busca, vai questionando tudo : a si próprio, a educação que deu ao filho, como se relacionou come ele, a forma (limitada) como viu sempre o mundo… Um pouco à deriva, à medida da mudança dos sentimentos que vai experimentando: medo, desespero, angústia, cólera, desânimo, culpabilidade, respeito, força, crença, perseverança…
No final deste primeiro tomo, a meio do díptico previsto, não sabe ainda o destino filho – tão pouco, sequer, se ainda está vivo… -, não sabe ainda – possivelmente nem nisso pensou – como o vai encontrar, onde o vai encontrar, se o vai encontrar, como o vai recuperar…
Mas os autores, com um relato sentido, emotivo e credível, com textos equilibrados e contidos – que mais do que expor levam o leitor a intuir. Muitas vezes questionando-se a si próprios… - já conquistaram os leitores, já os fizeram partilhar a dor com aquele pai, já os encheram de simpatia pela sua busca algo louca, algo ingénua.
O traço de Belin, submetido ao omnipresente verde da selva colombiana, algo agreste, por vezes próximo do caderno de viagens, se é verdade que não deslumbra, é de uma grande legibilidade, funciona muito bem no conjunto das pranchas, acabando por se tornar agradável no conjunto e é suficientemente expressivo para nos mostrar, nos fazer sentir o que sente – vai sentindo – Garondeau.

A reter
- A força e a emoção contida que emanam do relato.
- A sua originalidade.

Menos conseguido
- Este é o tipo de obra que dá vontade de ler de uma só vez, num só livro, que custa ter que aguardar alguns meses (ou mais) pela sua conclusão…

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