20/10/2017

Y: O último homem #1

Um homem (só) entre mulheres




Com o lançamento, ontem, pela Levoir, com o jornal Público, do primeiro volume de Y: O último homem, recupero o texto que publiquei no blog da Mundo Fantasma em 2014, como poderão verificar clicando aqui neste texto a cor diferente.
Mais do que uma leitura deste tomo 1, apresenta uma perspectiva global sobre a série, pelo que é possível que aqui ou ali haja ligeiros spoilers, que me parecem insuficientes para estragar a leitura…

Planeta Terra. 17 de Julho de 2002. Uma misteriosa epidemia dizima em poucos segundos todos os homens e todos os animais machos do planeta.
De um momento para o outro, o planeta perdeu quase metade da sua população global, quase todos os proprietários das maiores fortunas segundo a Forbes, a maioria dos governantes mundiais, dos pilotos, dos capitães de longo curso, dos motoristas de camião, dos presidiários, dos operários das indústrias pesadas, dos soldados e (praticamente?) todos os sacerdotes das mais representativas religiões…
Naquele instante fatal, a maioria dos aviões em voo despenharam-se, os navios em curso perderam o rumo, o trânsito nas grandes metrópoles e vias de acesso tornou-se impossível pela multiplicidade de viaturas acidentadas. Com os governos decapitados, com as forças da ordem paralisadas, sobreviver a todo o custo tornou-se o lema da maioria das mulheres sobreviventes.
A essa epidemia sobreviveram Yorick Brown, um jovem, e Ampersand, o seu macaco-capuchinho. No momento da tragédia, o último homem da Terra estava ao telefone com a sua namorada Beth, algures nas planícies australianas e acabava de a pedir em casamento. Encontrá-la passa a ser o seu principal objectivo, embora as circunstâncias o vão obrigar a fazer (múltiplos) desvios.
Partindo ao encontro da mãe - ex-ministra da agricultura, obrigada a assumir a presidência do país - é por ela confiado à agente 355, membro de uma organização secreta, o Círculo Culper, utilizada secretamente pelo governo para missões delicadas. O objectivo é que encontrem a dr.ª Alisson Mann, uma conceituada bioengenheira, com o intuito de que ela descubra por que razão ele e o seu bicho de estimação foram poupados, para a partir daí tentar evitar a extinção completa do ser humano.
Inicia-se então uma longa jornada, primeiro a dois, depois a três, que ao longo de meses- que se transformarão em anos - os levará a cruzarem os Estados Unidos e, mais tarde, mesmo à Austrália, ao Japão e finalmente à Europa, numa busca iniciática.
Em sua perseguição - em diferentes momentos e com diferentes intuitos - vão ter as novas amazonas, entre as quais Hero, irmã de Yorick, apostadas em destruir todas as memórias da passagem dos homens pela terra, um comando israelita chamado pela mãe de Yorick, dissidentes do Círculo Culper ou uma guerreira ninja nipónica a soldo de um misterioso empregador.
Apesar de uma ou outra questão temporal menos bem resolvida - a travessia dos Estados Unidos, feita de carro, mota, comboio, cavalo ou a pé, arrasta-se por muitos meses - a narrativa vai avançando de forma consistente, com sucessivos flashbacks que mostram onde estavam os diferentes intervenientes no momento da tragédia e também situações pontuais do seu passado que explicam as suas opções no presente.
Ao longo das jornadas, vão-se cruzando com sobreviventes, isoladas ou em pequenas comunidades. Algumas delas tentam seguir em frente, vivendo de acordo com aquilo que a nova ordem - ou será desordem? - lhes permite; outras esforçam-se por criar novas estruturas, mais flexíveis e adaptadas aos novos tempos; como sempre alguns grupos tentam aproveitar-se da situação para seu benefício ou para subjugarem outras; finalmente, algumas fazem patéticas tentativas de recuperar o que até aí existia.
Vaughan aproveita estes sucessivos encontros/recontros, para traçar um retrato pouco abonatório do ser humano - e o facto de retratar apenas mulheres não tem nada de sexista - mostrando o melhor e o pior do ser humano, enquanto acompanhamos e aprendemos a conhecer melhor os três protagonistas na busca iniciática de si mesmos e da felicidade e vemos como perante uma situação limite o ser humano tem tendência a mostrar o melhor e/ou o pior de si mesmo.
Não por acaso, aliás, escolheu para personagem central um adolescente tardio - deixem-me defini-lo assim - impulsivo, raramente razoável, poucas vezes adulto, o que provoca uma série de situações ambíguas, complicadas, perigosas ou mais do que isso.
Protagonista de uma obra com uma forte tensão sexual - e apesar do muito que é sugerido e mesmo (do pouco) que é mostrado, não é difícil imaginá-la mais explícita se fosse criação europeia - num mundo em que predomina o ódio ao macho, Yorick Brown, curiosamente,  mais do que ser desejado como objecto sexual pelas sucessivas mulheres que vai encontrando, é quase sempre perseguido por ainda estar vivo. Ao mesmo tempo, enquanto amadurece e se torna mais adulto - analisar o seu percurso ao longo da saga é um exercício bem estimulante - a sua posição vai evoluindo da jura de fidelidade a todo custo à sua namorada, que julga algures no deserto australiano para se ir aos poucos deixando atrair e seduzir por várias das mulheres com quem se vai cruzar, numa mudança progressiva e subtil que demora algumas centenas de páginas até ser consumada.
O conjunto, com inúmeras referências à cultura pop e à cultura norte-americana que ajudam a sustentá-lo e lhe dão credibilidade, depois de um início forte e acelerado, vai perdendo em ritmo o que ganha em complexidade, até ao final, suficientemente explícito e credível para dar (uma enorme) coerência ao todo mas também aberto quanto baste para que seja o leitor a tirar as suas conclusões, embora possa provocar alguma desilusão face a tudo o que até aí foi narrado.

Y: O último homem
#1 Um mundo sem homens
(#2 Ciclos - lançamento em 26 de Outubro)
Brian K. Vaughan (argumento)
Pia Guerra (desenho)
Levoir/Público
Portugal, 19 de Outubro de 2017
170 x 257 mm, 128 p., cor, capa dura
12, 90 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

5 comentários:

  1. Tenho uma versão americana de 5 volumes, que tanto quanto saiba, terá a série na totalidade. Não tenho a certeza se parei de ler ao terceiro ou se chehguei mesmo ao quarto.

    Até onde cheguei, não consegui conceber um adolescente masculino (tardio ou não), a não "aproveitar" todas ou quase todas as oportunidades de fazer sexo. Inclusive mesmo, a não pensar sequer na continuidade da sua espécie (a humana), que (pelo menos até onde li) precisava dele desesperadamente como um novo "Adão".

    Até onde li, só tinha vontade de começar ao estalo com uma data de personagens, a começar no Yoric e a passar ou terminar mesmo na sua irmã Hero.

    Acho excelente que seja publicada em Portugal, mas no meu caso, passa-me ao lado.

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  2. Tenho a mesma versão e já vou no quinto volume,não é um Preacher mas adorei a história.Acho que o fato de Yoric ter a personalidade que tem é que dá um ar cómico a toda a história, mas são gostos. Muito bom mesmo aconselho.

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  3. E a qualidade do papel é igual a Salvat ou mais tipo a novelas gráficas?

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  4. Já tenho a saga toda em Inglês, logo, não irei comprar isto.
    Mas aconselho a todos os que não conhecem que o façam, pois a história é fantástica e o final é das coisas mais belas que li (mesmo a puxar a lágrima)....

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