24/01/2020

O Pacto da Letargia

Inovar na continuidade





Introdução
Obra inovadora na continuidade - tentarei explicar mais à frente o aparente paradoxo - O Pacto da Letargia é o primeiro grande lançamento deste novo ano e, mais do que isso, confirma a mestria de um autor que continua a ser dos maiores que a banda desenhada conhece.
Resumo
A descoberta de algumas notas perdidas por um assistente universitário, vai colocá-lo na pista de um tríscelo, um artefacto da cultura celta que outros cobiçam, numa história profundamente enraizada na Galiza física mas também nas suas crenças mais ancestrais, em que realismo e mitologia caminham a par.

Desenvolvimento
Na minha mente, talvez porque o conheci assim, com algumas excepções - O Manancial da noite, Traço de Giz, Tangências, De Profundis... serão as mais evidentes - pela obra de Prado perpassam - em comum, quase sempre - duas fortes correntes temáticas: um humor absurdo, crítico e de dedo acusador, e uma profunda preocupação com o ser humano e o questionar das suas opções. Para além da sua ancoragem numa realidade que, mesmo quando é distorcida e ridicularizada, é perfeitamente reconhecível.
Se aquele sentido de humor está (quase totalmente) ausente de O Pacto da Letargia, a crítica ao ser humano e aos seus comportamentos - bem para lá da questão ecológica que é aqui a mais forte - são a base desta obra que, encontrando dessa forma o seu lugar n(um)a continuidade temática, se desvia do realismo até agora assumido pela introdução de seres da mitologia celta, despertados de um sono de séculos, devido aos perigos que o nosso planeta corre. Uma desavença entre estes últimos, motivada pela forma como encaram a situação e diferem na sua abordagem, vai colocar em perigo a realidade que conhecemos e acrescentar um toque mágico/místico a um relato que, por outro lado - também preponderante, mas cuja insignificância se afirma face à grandeza das outras questões - questiona os interesses académicos e denuncia o tráfico de artefactos antigos e obras de arte.
Esta temática multifacetada, impregna a obra de vários matizes e permite que Prado, uma e outra vez, surpreenda o leitor pela forma como as vai gerindo e combinando, quer nos avanços que a investigação vai tendo, quer nas interferências - a favor ou contra - que o fantástico vai nela introduzindo, quer, finalmente, pela afirmação da individualidade humana e - apesar de tudo - da sua crença nos seres imperfeitos que pululam por este planeta.
O final - auto-conclusivo mas aberto, que intui interacção futura (necessária) com os outros dois tomos desta trilogia - dá muitas das respostas que o leitor pede, mas deixa também uma zona de indefinição que permite a cada um tirar conclusões em função da sua maior proximidade com o real ou o com místico.

A reter
- A capacidade de Prado se reinventar (tematicamente) como autor.
- A sublime arte de Prado e a forma como insere nela a cor. Veja-se, a título de meros exemplos, a prancha inicial, que abre este texto ou a visita de Rego ao professor Ancares (pp. 22-26)
- A edição da Ala dos Livros, de tamanho generoso, papel de boa gramagem e excelente impressão.
- O timing desta edição, lançada em simultâneo com a francófona e três meses antes (!) da espanhola.

Menos conseguido
- A opção, na segunda parte do livro - digo eu - por planos próximos/médios que, se por um lado se revelam necessários para possibilitar o aumento de ritmo que a aproximação do final pede, esvaziam - o termo é propositado - a arte e tornam menos belas as pranchas quando comparadas com as já citadas e com outras mais preenchidas.
- Prado levou cerca de dois anos e meio a escrever, desenhar e pintar O Pacto da Letargia. Sendo este o primeiro tomo da Trilogia de Trisquel, mantendo-se o ritmo só daqui a cinco anos é que será expectável que ela esteja concluída… Como vamos ser capazes de esperar tanto?

O Pacto da Letargia
Miguelanxo Prado
Ala dos Livros
Portugal, Janeiro de 2020
235 x 310 mm, 104 p., cor, capa dura
24,90 €

(capa disponibilizada pela Ala dos Livros; pranchas retiradas do blog de Miguelanxo Prado; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

4 comentários:

  1. Boa tarde,

    ainda não encontrei o livro nas livrarias. Sabes me dizer, onde é que o posso adquirir sem ser encomendando - vi que a bertrand ou a wook já tem disponível para encomenda?

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    1. Bom dia, Estava à venda na papelaria Cult da Praça do Areeiro em Lisboa, isto no Sábado de manhã...é melhor telefonar para lá para confirmar.

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    2. A informação da editora é que os livros já seguiram para as livrarias; deverão estar à venda muito em breve, se é que entretanto já não estão...
      Boas leituras!

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    3. Muito obrigado a ambos! Ainda hoje passo na cult, já que fica próximo de casa. Não me lembrei deles. Tentei barata, almedinas, bertrands, fnacs e ainda não tinham o livro em stock.

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