08/02/2022

Fronteiras do Além

Um português no Brasil...



Até ao fim da ditadura no nosso país - aqui considerada apenas como marco temporal, embora não isenta de responsabilidades - houve dois autores que fizeram carreira de sucesso fora das nossas fronteiras.
Um, naturalmente, foi Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), apreciado em Espanha, França, Itália, tanto na BD como na ilustração.
O outro, foi Jayme Cortez (1926-1987), que o Brasil acolheu a partir de 1947.

Naquele país, este ilustrador português - que, diga-se a título de curiosidade, se cruzou com Coelho em O Mosquito - fez uma distinta carreira, naturalizou-se, organizou a primeira grande exposição de 'quadrinhos' e, entre muitos outros méritos, foi o responsável por indicar a direcção mais adequada na carreira a um certo... Maurício de Sousa! Que o reconhece, no prefácio que abre este livro.

Fronteiras do Além - justíssima homenagem a Cortez e súmula da sua carreira no género do terror - reúne todas as suas produções em BD desta temática (cerca de 60 páginas) - incluindo as duas versões do famoso O Retrato do Mal.

Para além disso, inclui uma biografia do desenhador, reproduz dezenas de ilustrações que criou para capas de revistas, livros e cartazes de filmes, explica, com exemplos, o seu método de trabalho - da fotografia de poses ao desenho ao vivo, da planificação prévia às várias fases do traço - e fecha com uma série de depoimentos de nomes fortes dos 'quadrinhos' e da cultura brasileiros, que comprovam e destacam a importância que Cortez assumiu naquele país, a diversos níveis, bem para lá da simples autoria de BD.

Possuidor de um traço nervoso e dinâmico, magnificamente aplicado com pena ou pincel, genuinamente apropriado para o terror, o seu género de eleição, Jayme Cortez era também mestre no uso de fortes contrastes de branco e negro, sendo a sua planificação valorizada pela constante mudança de enquadramentos, que conferiam um dinamismo extra às narrativas.

Excelente edição da Pipoca & Nanquim, com capa dura, impressão inatacável e boa definição de contrastes e cores, este é o tipo de livro - de documento histórico... - que faz falta no mercado português, onde alguns autores - (também) contemporâneos de Cortez - merecem ser assim destacados para que o seu nome e a sua obra não caia no esquecimento.


Fronteiras do Além
Jayme Cortez - A edição definitiva do Mestre dos Quadrinhos de Terror
Organização e edição: Fábio Moraes
Prefácio: Maurício de Sousa
Pipoca & Nanquim
Brasil, Junho de 2020
225 x 298 mm, 56 p., cor, capa dura
R$ 69,90

(imagens disponibilizadas pela Pipoca & Nanquim; clicar neste link para apreciar mais; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

4 comentários:

  1. O trabalho levado a cabo pelo editora brasileira Pipoca & Nanquim de resgate de autores nacionais é simplesmente notável. Por aqui, não há ninguém que se arrisque neste trabalho?...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O trabalho da Pipoca & Nanquim é realmente de destacar. Depois deste volume, estou a ler o do Flávio Colin e a qualidade mantém-se.
      Por cá, temo que as vendas fossem demasiado curtas para garantir tiragens minimamente rentáveis... o que é uma pena, porque há obras de autores nacionais que valia a pena recuperar.
      Boas leituras!

      Eliminar
    2. António, não podemos ser injustos. Para um mercado tão pequeno como o português, tivemos resgate de duas obras do Relvas recentemente. A P&N tem um canal no youtube com 250mil subscritores. Alem disso a Amazon é parceira e durante 2 meses fazem uma pré-venda que lhes permite saber quantos livros imprimir. Além disso a Amazon paga à cabeça pelos livros todos.
      Cá não temos nada disso.

      Eliminar
  2. Caro Fernando agradeço o seu comentário mas não vislumbro onde possa a estar ser injusto. Conheço perfeitamente as circunstâncias em que a editora brasileira opera e apenas questiono o porquê da ausência de entidades portuguesas (editoras, organismos oficiais, fundações, etc..) no resgate do património gráfico nacional, nomeadamente no que diz respeito á BD. Com tantos programas de apoio, fundos dos mais variados, etc, e mesmo com o patrocínio de entidades privadas e/ou públicas já se poderia ter chegado a alguns resultados palpáveis. São obras que decerto necessitam de uma orientação e edição especializada e tempo para as concretizar mas que, com o devido tempo e empenho poderiam dar fruto. Lembro aqui alguns exemplos: o livro “Quim e Manecas 1915-1918” editado pela Tinta da China, as belíssimas antologias de Tóssan (mais ilustração) da Abysmo…

    ResponderEliminar