03/07/2026

Supergirl - Mulher do futuro

Qual o prazo de validade de uma vingança?




Poucos dias antes da estreia do filme, [no passado dia 25 de Junho], a Devir disponibilizou Supergirl - Mulher do futuro, o romance gráfico que serviu de base à película de Craig Gillespie, que tem argumento de Tom King, um dos mais aclamados escritores de super-heróis da actualidade.

Da leitura, a primeira constatação é que estamos mais próximos de um registo de ficção-científica do que de super-heróis, apesar da protagonista e de umas quantas referências ao longo do relato. Este, curiosamente, inicia-se com duas páginas que aparentemente desvendam o final e que, fazendo-o realmente, não o expõem na sua totalidade nem na sua essência, longe disso, como a leitura, que se apresenta longa, consistente e com muitas camadas permitirá constatar.

Na sua base, está a morte de um mineiro pobre e anónimo pelo mercenário Krem das Colinas Amarelas e o desejo de vingança que a partir daquele instante move Ruthye, a sua filha e testemunha do assassinato. A sua demanda, ingénua e sem preparação, fará com que se cruze com a Supergirl, formando um improvável duo atormentado por feridas antigas e questões morais, que as levará por mundos desconhecidos com seres maravilhosos ou aterradores, muitos deles - mundos e seres - capazes de protagonizar histórias igualmente desafiadoras, até ao tal final antecipado, mas completamente distorcido.

A Supergirl surge aqui numa versão depressiva, sempre atormentada pela comparação desfavorável com o seu primo Super-Homem, que supostamente tinha vindo proteger após a destruição do seu planeta natal, para descobrir que afinal ele não precisava de protecção. O que a deixou numa busca constante pelo seu lugar no novo planeta, entre o que era esperado dela e a comparação sempre desfavorável com ‘o maior super-herói da Terra’.

Isso contribui para a versão a um tempo mais sombria, sim, mas que exibe simultaneamente um lado também contemplativo e até épico, assente no grafismo grandioso de Bilquis Evely, servido pelas belas cores de Matheus Lopes, o que leva a que este Supergirl - Mulher do futuro, pela temática de base, evoque naturalmente o Valérian de Mezières e Christin ou o traço único de Moebius.

Entre a fé, o desejo de vingança que move montanhas, a determinação alternada com o desalento, o peso das perdas, as inquietações morais, o sempre difícil equilíbrio entre a justiça instituída e aquela que se realiza através das próprias mãos, as diferentes motivações das duas jovens e a inexorável passagem do tempo que parece estender até ao infinito a concretização dos seus anseios, Supergirl - Mulher do Futuro de algum modo subverte o seu género narrativo de base, coloca questões incómodas sobre o desejo de vingança e o quão fria ela se pode servir, obriga a pensar mais do que à partida seria expectável e constitui uma leitura muito aconselhável bem para lá do simples âmbito dos super-heróis.


Nota final

Numa altura em que a oferta editorial no nosso país proporciona uma variedade de leituras nunca vista, não deixa de ser curioso que a BD que formou tantos leitores dos nosso dias, seja a menos representada. Falo das edições Disney - cujo regresso parece improvável face aos actuais hábitos de leitura, ao desaparecimento das revistas e à quase inexistência da em tempos prolífera rede de quiosques e papelarias - e dos super-heróis que, de algum modo, a Devir está agora a tentar suprir - com o acerto (ou a falta dele) que só as vendas revelarão.


Supergirl - Mulher do futuro
Tom King (argumento)
Bilquis Evely (desenho)
Matheus Lopes (cor)
Devir
Portugal, Junho de 2025
190 x 280 mm, 224 p., cor, capa dura
20,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 18 de Junho de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Devir; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar os textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

2 comentários:

  1. Não vai ser um tpb solo a reboque de um filme que vai fazer surgir o flash,a liga,ou os lanternas,quando 90% da bd é do Batman porque vende que é repetir um erro da Levoir e deles sobre outras gerencias..

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  2. Quanto a Disney no auge das editoras em Portugal nenhuma tem interesse em publicar quase uma década depois da última revista da falida Goody,e isto o país encantado das bds...

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