27/04/2022

Nevada #1

Alicerces



Pode um mercado assentar apenas na edição de obras-primas?
Por muito que custe ou que custe a entender, a resposta é não. Um mercado - seja qual for a sua dimensão - funciona como uma pirâmide em que as obras-primas - como as obras alternativas - são sustentadas pelas edições 'grande público' e pelas obras de 'dimensão média'. Ou seja, por aquele tipo de bandas desenhadas - de humor, aventura.... - que, para além dos leitores regulares do género, são capazes de satisfazer os leitores ocasionais.
Sendo que tudo o que atrás fica escrito - como o que vem a seguir - está sempre dependente dos gostos relativos de cada leitor e, globalmente, dos do tal 'mercado', é por isso que, entre nós, actualmente, predomina um certo tipo de banda desenhada chamado genericamente de 'aventuras'. Com pontos a favor e contra, séries como Mercenário, Guardião, Duke, Thorgal, Tango... têm o seu lugar, são fundamentais até na estruturação de vendas e de conquista de lugar nas livrarias e, enquanto séries, beneficiam do efeito de 'arrastamento' que cada novo volume provoca. Este Nevada, é o exemplo mais recente.

Num mercado que alguns consideram saturado de westerns - mas que possivelmente apenas (cor)responde ao que os leitores desejam... - esta criação de Duval, Pécau e Wilson, fica de algum modo a meio caminho entre aquele género e a aventura (mais) 'pura'.

A meio caminho porque, se em termos de localização e de cenários - e mesmo do posicionamento de muitos dos intervenientes - tudo parece apontar para o Oeste selvagem, a sua colocação temporal na segunda década do século passado, obriga à troca dos cavalos pelos primeiros automóveis e motas e o nascimento de Hollywood e da indústria do cinema - onde os westerns muitas vezes tiveram um lugar primordial - permite um outro tipo de situações e de enredo.

O protagonista é Nevada Marques é um aventureiro com um pé em cada um daqueles espaços/tempos, encarregado de fazer o trabalho sujo encomendado pelos estúdios, como encontrar actores renitentes ou saturados da exploração a que estão sujeitos, impedir ou atenuar o surgimento de escândalos com eles relacionados...

Com um traço mais duro e sujo do que é habitual neste tipo de criações - mas que é de certa forma a imagem de marca do talentoso Colin Wilson - o que acentua o seu tom sombrio, alguma amoralidade do protagonista e o ambiente de podridão em que Hollywood se (a)firmou, com muitas intrigas e ódios, negócios esconsos e exploração humana à mistura, Nevada tem nessa duplicidade temática o seu aspecto mais interessante e desafiador. Até porque, num volume em que predomina a acção, se é evidente que facilmente a mesma história - com pequenos ajustes - poderia ser contada como um western puro ou numa série de aventuras um pouco mais à frente no tempo, é nela que assenta a sua originalidade.

Narrativamente, Duval e Pécau revelam a competência expectável numa série franco-belga que, nos próximos volumes, irá com certeza explorar o passado do protagonista, para lhe conferir maior espessura e credibilidade e permitir a criação de empatia por parte dos leitores - aspecto fundamental para o sucesso de uma BD de aventuras. Para já, aceitando alguma previsibilidade numa leitura que pressupõe diferença e descoberta, fica retido na memória o pormenor que o final desvenda e marca pontos a favor de Nevada.


Nevada #1 A estrela solitária
Fred Duval e Jean-Pierre Pécau (argumento)
Colin Wilson (desenho)
A Seita
Portugal, Abril de 2022
230 x 320 mm, 56 p., cor, capa dura
16,85

(imagens disponibilizadas por A Seita; clicar nesta ligação para ver maispranchas ou nas aqui reproduzidas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar no texto a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

2 comentários:

  1. Um bom desenho mas um argumento totalmente desinteressante. Mesmo o pormenor final, que segundo o Pedro marca pontos, não tem qualquer originalidade já que é uma ideia roubada a um filme famoso. Os albuns seguintes até podem ser melhores mas com tanta coisa para ler já não vou perder mais tempo com esta série.
    João Dias

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  2. Por mim, comprei (claro! tratando-se de mais um pseudo-western) e estou a ler. Para já fica a nota para a espetacularidade do desenho e composições de Wilson, bem melhor do que o traçado da juventude de Blueberry! Fico expectante e à espera dos álbuns seguintes. (João Reis)

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