07/10/2026

No rasto de Blueberry

No rasto de grandes memórias



A 31 de Outubro de 1963, um certo Mike Steve Donovan fazia a sua estreia nas páginas da revista Pilote. Haveria de ficar conhecido simplesmente como Tenente Blueberry (ou só Bluberry) e, num tempo em que os heróis costumavam dar bons exemplos aos jovens leitores, distinguiu-se como batoteiro, indisciplinado, teimoso, beberrão e conflituoso.

A banda desenhada nunca mais seria a mesma e o western ainda menos. Com Blueberry, a par de Comanche, o Velho Oeste deixou de ser a preto e branco, ganhou zonas cinzentas, passou a haver índios bons para além dos mortos e nem todos os brancos eram flores que se cheirassem. Para além de uma certa temática humanista, contida, da base histórica e da grande aventura que Jean-Michel Charlier incutiu nela, a série distinguiu-se ainda, progressivamente, pelo grafismo a um tempo realista, elaborado e profundamente legível com que um Jean Giraud - que viria a ser Moebius - recriou uma época selvagem, com cenários deslumbrantes e confrontos épicos.

No rasto de Blueberry, que a ASA acaba de editar entre nós, é uma obra colectiva em que quase três dezenas de autores, muito deles da fina-flor da BD franco-belga, homenageiam a série original.

Se gerações de leitores - entre os quais os que descobriram Blueberry nas páginas da Tintin portuguesa, que para além do material da sua congénere belga também publicava as séries da Pilote, como este Bluberry, mas igualmente Astérix, Luckey Luke, Valérian... - vibraram com os feitos do tenente sulista que lutou pelo Norte contra o fim da escravidão, a sua importância mede-se também pelo depoimento de cada autor que participou nesta aventura, todos eles, afinal, admiradores e devedores confessos de Charlier e Giraud e da sua série. Por isso, possivelmente, muitos deles fizeram do western o seu campo gráfico e narrativo de eleição.

E há de tudo um pouco nesta bela e justa homenagem, de histórias autónomas a narrativas que entroncam em diferentes momentos da cronologia original, do humor e da ironia ao relato mais duro, de encontros com outros heróis até à explicação para o apelido Blueberry…

A leitura de No rasto de Blueberry, inevitavelmente, irá soltar memórias, evocar horas de leitura apaixonada, recordar momentos únicos passados a virar página após página em loucas cavalgadas ao lado do protagonista. E, terminada a sua degustação, só restará um caminho: regressar, pela enésima vez, aos álbuns originais com as aventuras de um certo Mike Steve Donovan.


No rasto de Blueberry
Obra colectiva
ASA
Portugal, Setembro de 2026
244 x 319 mm, 128 p., cor, capa dura
24,90 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 25 de Setembro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

2 comentários:

  1. O conselho faz sentido! Regressemos pois aos álbuns originais!!! Diogo Figueira

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu reli os 6 primeiros, mas a pressão dos álbuns novos por ler é muito grande...
      Boas leituras!

      Eliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...