06/07/2026

Caderno de memórias coloniais

A pedido…?




Parece (quase) a pedido: depois do que eu escrevi como intróito a propósito de A Fuga, a verdade é que nessa últimas semanas se têm multiplicado as obras de autores portugueses que de algum modo abordam quer o tempo da ditadura, quer a guerra colonial, quer os anos que se seguiram à Revolução dos Cravos. 

No entanto, se a maioria - A fuga, Um quadrado de céu, Co.Br.A. – Porto, ... - "se limitam" a recriar a História, mesmo que ficcionalmente, Memórias da guerra colonial fá-lo também, é verdade, mas através da evocação de uma história pessoal. Mais exatamente a história do pai da autora, Isabela Figueiredo - que primeiramente a relatou no romance que agora adapta - participante indireta, involuntária – algo de que só tomou tomou consciência mais tarde - da forma como os brancos se relacionavam com os negros em Moçambique. Um eufemismo, obviamente, para referir a prepotência, a violência, os abusos sexuais que os ‘grandes colonizadores’ portugueses perpetravam contra os locais.

Entre vergonha assumida, o desconhecimento da forma de agir da figura paterna em algumas ocasiões e a exposição crua da forma como os brancos tratavam os negros, iam às negras, batiam neles, aproveitavam-se de delas, perante os nossos olhos – em especial no violento e incómodo primeiro terço do livro - vão sendo desfiadas memórias de um tempo que passou mas que muitos gostariam de ver de volta.

Com a Revolução, depois a Independência de Moçambique, os ricos constataram que não o eram tanto assim, os negros perceberam que tinham direitos – os excessos existiram de parte a parte – e uns e outros tiveram que perceber o lugar que lhes cabia – ou em alternativa para tantos, de regressar à metrópole – onde em muitos casos passaram a ser eles os abusados, os oprimidos, os recusados… Não por um qualquer karma que facilita a vida e alivia as culpas de quem prefere a crendice bacoca à realidade, mas porque o ser humano é mesmo assim e, tendo oportunidade de espezinhar o seu semelhante... vai mesmo fazê-lo.

Há alturas em que a força da mensagem, a sua assertividade, a forma como coloca em perspectiva o que tantas vezes é dado por adquirido ou ultrapassado, ultrapassam o aspecto formal. Quero com isto dizer que não sou especialmente adepto do traço de Júlia Barata, que questiono até o definir este Caderno de memórias coloniais como uma banda desenhada tout court, estará quando muito numa fronteira indefinida entre a ilustração e a BD pura e dura, em especial pela quase total ausência de verdadeiras sequências narrativas e pela submissão do desenho ao texto escrito, com este último geralmente ‘repetido’ nas imagens (que apenas o ilustram).

Mas, independentemente disso, esta é uma leitura que urge fazer e mais uma viagem ao que Abril nos deu – e não só a nós, portugueses.


Caderno de memórias coloniais
Isabela Figueiredo (argumento)
Júlia Barata (desenho)
Caminho
Portugal, Maio de 2026
154 x 233 mm, 144 p., cor, capa mole com badanas
21,90 €

(imagens disponibilizadas pela Caminho; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente, para saber mais sobre os temas destacados)

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