Memórias do céu aos quadradinhos
Ainda há escassas semanas referia a pouca apetência da BD nacional pelas temáticas relacionadas com a ditadura e o 25 de Abril e eis que, após A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus, chega às livrarias Um quadrado de céu, de Susana Moreira Marques e Joana Afonso, numa edição de Os Livros de Oeiras.
Apesar de ambas terem a prisão de Caxias como cenário de grande parte da narrativa, a verdade é que os pontos comuns se ficam por aqui pois, enquanto o primeiro privilegiava o relato de uma fuga com contornos de filme de Hollywood, este mais recente opta por uma abordagem intimista, centrada nas memórias, nas suas razões e nos seus efeitos ao longo do tempo.
Um quadrado de céu surge ao leitor contado na primeira pessoa, por Susana Moreira Marques, que o escreveu, sob o ponto de vista de alguém que passou o tempo a adiar um trabalho que, paradoxalmente, considerava essencial pôr no papel.
Por seu lado, Joana Afonso, que se afirma cada vez mais como um dos mais sólidos e importantes nomes da banda desenhada portuguesa contemporânea, com o seu traço personalizado, em que se destaca a expressividade dos rostos, fundamental numa obra introspectiva como esta é, dá mais um exemplo da sua versatilidade e da sua capacidade de abordar diferentes registos, sem perder em legibilidade ou ritmo.
Na base de Um quadrado de céu estiveram entrevistas com pessoas - como nós - que viveram na pele as consequências de lutar contra o regime salazarista e que, por isso, passaram períodos mais ou menos longos naquela cadeia. Algumas mais conhecidas, como Domingos Abrantes, a maioria anónimos com quem nos podemos cruzar sem imaginar o que viveram, as privações que passaram, as humilhações que sofreram, as torturas a que foram sujeitos…
Vivências hoje difíceis de entender e, quase, de acreditar, mas que são impossíveis de esquecer por quem as viveu - embora na maior parte dos casos preferissem não as recordar. Memórias reprimidas mas cultivadas, retiradas regularmente do baú em que foram enfiadas, cuja partilha é fundamental nos dias de hoje em que a democracia parece tão frágil, para todos sabermos o que aconteceu para que não se volte a repetir, para valorizarmos aspectos que damos como adquiridos, como a liberdade, a democracia, a liberdade de expressão e pensamento...
Um
Quadrado de Céu
Susana
Moreira Marques (argumento)
Joana
Afonso (desenho)
Os
Livros de Oeiras
Portugal,
Maio de 2026
221
x 286 mm, 72 p., cor, capa mole com badanas
17,00
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias a 22 dede Maio de 2026 e na versão em papel impressa do dia seguinte; imagens disponibilizadas por Os Livros de Oeiras; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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