15/06/2026

Vizinhos

Retrato duro da nova normalidade



Nome em destaque nos últimos quase 40 anos, Nuno Saraiva tem dividido a sua actividade artística entre a ilustração, a banda desenhada e aquilo a que se poderia chamar a pintura social, com a realização de inúmeros murais pela sua Lisboa que, na verdade, é protagonista de quase toda a sua obra.

Conhece por isso ruas, bairros, sociedades e associações e, por conseguinte, aquele núcleo que, em tempos que já parecem distantes, funcionava quase como uma segunda família: os vizinhos, a quem se confiavam os filhos, se pedia 2 ovos ou um pouco de açúcar, com quem se partilhavam mágoas e alegrias.

Vizinhos é exactamente o título do álbum que marca a sua nova incursão na banda desenhada, acabado de editar pela ASA. Escrito por Ana Bárbara Pedrosa, à imagem da imagem de marca de Nuno Saraiva, é um retrato duro da nova normalidade, que retrata à saciedade como os tempos mudaram.

Com a inevitável nota humorística que tem sido acompanhado a obra de Saraiva ao longo dos anos, embora o humor surja aqui mais contido e até desencantado, mas sem renegar o traço caricatural que o distingue, os autores dão vida a quatro conjuntos de pessoas, inevitavelmente vizinhos, que têm de se suportar uns aos outros, uma vez que convivência é um termo demasiado forte e impossível de aplicar nas realidades mostradas.

Este conjunto de quatro relatos, aborda temáticas que infelizmente estão na ordem do dia: a violência doméstica e os remorsos ou falta deles na justificação para ter matado a mulher e o estigma social que isso provoca; a solidão que ataca quem ficou sem ninguém, consubstanciada na vizinha de idade que não tem paciência para qualquer tipo de barulho, mesmo que sejam só crianças pequenas a brincar; a multi-culturalidade a que alguns também chamam imigração desregrada, espelhada numa obra conflituosa ou numa reunião de condomínio em que as diferenças culturais e religiosas, mesmo que mínimas, são gatilho para todas as acusações e disputas.

São sinais dos tempos, da falta de empatia e solidariedade, mas sinais incómodos, que obrigam a olhar para quem e como somos e para a forma como (não) nos relacionamos com os outros.

Na verdade, possivelmente, não odiamos hoje mais ou menos que há 10, 30 ou 50 anos; o que mudou foram os alvos do nosso ódio. E o aumento das evidências que ele existe - e como alguns facilmente o justificam.


Vizinhos
Ana Bárbara Pedrosa (argumento)
Nuno Saraiva (desenho)
ASA
Portugal, Abril de 2026
225 x 300 mm, 64 p., cor, capa dura
17,90 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias a 29 de Maio de 2026 e na versão em papel impressa do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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