02/06/2026

Joker

O regresso d
(e um)a banda desenhada popular?

"Amor e ódio vão dar ao mesmo." 
Joker in “Joker”

Houve um tempo - e são cada vez menos aqueles que se lembram dele - em que a banda desenhada era um divertimento extremamente popular. Para isso contribuíram, de forma não displicente, alguns factores: o preço acessível das publicações, a facilidade com que se encontravam por toda a parte e o facto de serem poucas as alternativas de entretenimento oferecidas. 

Os tempos mudaram - com tudo que isso trouxe de bom e de mau - e hoje em dia a maior parte da banda desenhada disponível no mercado é oferecida em belíssimas edições de alta qualidade, com o consequente preço elevado. A excepção a esta regra são as edições de manga que - também por isso? - são mais atractivas para os mais novos.

A exemplo do que tem acontecido outros países - pois, não é invenção nacional - a Devir acaba de introduzir no nosso mercado um conceito que de certa forma tenta popularizar de novo a BD, tal como aconteceu há anos no que aos romances diz respeito: edições em formato bolso e preço declaradamente baixo - e por isso atractivo. [Em formato de bolso, assim o chama a Devir, fazendo eco do DC Pocket original, que na verdade corresponde ao chamado formato Bonelli - numa altura em que, curiosamente, com o mesmo objetivo, a editora italiana vai começar a republicar alguns dos seus heróis mais populares num formato (ainda) menor e com mais páginas…]

A entrada deu-se em dose dupla, com Batman - Cavaleiro Branco e Joker que têm em comum o protagonismo deste último, em ambos os casos aparentemente curado da sua tradicional insanidade.

Se no primeiro - sobre o qual já escrevi -  Sean Murphy coloca o criminoso a tentar dinamitar o sistema a partir do seu interior, seguindo as regras sociais e políticas, face a um Homem-Morcego, ele sim, descontrolado, já em Joker o alter-ego do Batman caracteriza-se pelos excessos a que nos habituou, espalhando mortos e destruição, enquanto tenta retomar uma posição de controle no sub-mundo de Gotham, após anos encerrado no Asilo Arkham.

A par de um argumento extremamente violento de Brian Azzarello, em Joker destaca-se o desenho hiper-realista de Lee Bermejo, que acentua a dureza e a barbárie postas no terreno, em especial quando propõe, como que utilizando um zoom, grandes planos de pormenores especialmente chocantes. Aliando a isto os tons soturnos predominantes, apenas cortados aqui e ali por laranjas e vermelhos ocasionais, muitas vezes associados ao sangue que jorra com abundância, deparamos com uma obra com um visual chocante, que até se poderá revelar incómoda para leitores menos avisados.


Nota adicional: o formato 

Dirão alguns - e eu pensei-o antes de falar com alguém mais entendido na edição - “Com tantas obras disponíveis neste formato no catálogo original da DC Comics, não teria sido mais inteligente comercialmente iniciar esta nova etapa editorial com títulos que fossem inéditos no nosso mercado, ao contrário destes dois que tiveram edição dita normal há pouco mais de meia dúzia de anos?” E a resposta é: “Não!”. O formato Pocket, para além da evidente poupança no papel - bom papel baço, bem impresso - e na capa, pressupõe outras. O não pagamento de ficheiros, de tradução e da legendagem… O que só é possível em obras já editadas. Caso contrário, os actuais 10€ de preço de capa subiriam por aí acima...

Por outro lado, a verdade é que com as tiragens curtas que actualmente se praticam, a duração das obras no mercado é reduzida. E, mais importante, é também verdade que estas edições de bolso potencialmente não se destinam aos habituais leitores de banda desenhada - que já compraram as edições maiores, de maior qualidade - mas sim a novos leitores - novois na idade e, eventualmente, na leitura de super-heróis - que possam ser conquistados pelo novo formato/preço.

Porque, sim - e este é um ponto fundamental e que tem que ser considerado - esta edição é potencialmente para novos leitores, é para leitores que querem ler banda desenhada em português, mas não precisam de edições ‘luxuosas’ e não estão dispostos a pagar um preço muito alto por ela - e não está em causa a justiça desse preço - é para abrir horizontes a leitores de manga - ou de outros géneros...


Joker
Brian Azzarello (argumento)
Lee Bermejo (desenho)
Devir
Portugal, Maio de 2026
148 x 210 mm, 132 p., cor, capa mole com badanas
10,00 €

(versão revista do texto publicado noo Jornal de Notícias de 16 de Maio de 2026; imagens disponibilizadas pela Devir; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...