13/07/2026

Là où tu vas

Para onde todos nos encaminhamos


É o que eu procuro. É atrás disso que eu corro.
Histórias que passam ao meu alcance.
Trajectórias humanas que me parecem dignas de serem contadas.”
Étienne Davodeau In Là où tu vas
(tradução livre de As Leituras do Pedro)


E é isto que Davodeau tem feito ao longo de uma carreira recheada de obras notáveis que falam do nosso tempo, de pessoas como todos nós, de situações anónimas ou comezinhas que afetam - de sobremaneira… - quem as vive ou com quem eles contactam.

Desta vez, o ponto de partida é a sua companheira de tantos anos, Françoise Roy, alguém que quase desde sempre trabalha com aqueles a quem a memória foi abandonando. Da primeira reação negativa perante a ideia do livro até à sua aceitação e a uma cumplicidade plena na sua realização, em Là où tu vas vamos acompanhar como o casal o preparou, as entrevistas que foram feitas, como decidiram o que incluir ou retirar da obra final, as linhas de fronteira que traçaram…

A forma como Davodeau, por uma vez ficou na retaguarda, em casa, a planificar e a desenhar - para não perturbar (ainda mais) o quotidiano daqueles que quase já não o têm - cabendo a Françoise o papel preponderante, pois é maioritariamente o seu dia-a-dia que vamos acompanhar, conversando com aqueles que já contacta habitualmente, transmitindo ao companheiro o que observa ou sente, narrando-lhe os casos em que participa, sensibilizando-o para a realidade (tão) difícil - que nos espera a todos? - para a falta de meios - e de conhecimento - que permita amenizar o fim de vidas gradualmente preenchidas por um vazio interior e uma total falta de noção da realidade.

Cada caso é um caso, cada pessoa é afectada de forma diferente. Se nos habituámos a pensar a Alzheimer como a perda das memórias ou o não reconhecimento dos próximos, ela pode ser muito mais e e o que se há de fazer quando a doença (maldita) leva a esquecer as regras quotidianas mais básicas, como fazer necessidades fisiológicas, comer, a higiene pessoal, até a a própria capacidade de falar...

Este é um livro - mais um de Davodeau - incómodo e chocante, com um pouco deh umor e uma enorme ternura, que obriga a pensar e a ter um olhar diferente sobre este ‘mundo maravilhoso em que vivemos’, tanto sobre as consequências da doença, que todos receámos, quanto sobre a sensibilidade, o cuidado e a atenção que são necessários para auxiliar quem a tem.


Um livro é um objeto de múltiplos poderes entre os quais se encontra
o de conservar a memória humana para lá da nossa própria existência.
Étienne Davodeau In Là où tu vas
(tradução livre de As Leituras do Pedro)


Là où tu vas
Voyage ao pays de la mémoire qui flanche
Étienne Davodeau
Posfácio de Françoise Roy
Futuropolis
França, Outubro de 2025
200 x 272 mm, 160 p., cor, capa dura
24,00 

(imagens disponibilizadas pela Futuropolis; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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