Más acções a longo prazo
Perante a sua incapacidade de roubar do galinheiro galinhas já criadas,a Raposa Malvada, a conselho do Lobo, parte interessada no acontecimento, decide roubar uns ovos e esperar que os pintainhos nasçam, para depois os assustar e finalmente comer.
Inevitavelmente, quanto mais não seja para dar corpo e consistência a uma história de galeria de personagens limitada, cuja acção decorre em apenas dois palcos - o galinheiro e a floresta - a raposa vai-se encher de ternura pelos minúsculos voláteis e descobrir um instinto maternal adormecido.
É assim que começa A Raposa Malvada, uma conseguida subversão do conto clássico, em boa altura disponibilizado em português pela Arte de Autor. E se o que atrás escrevi parece indiciar uma fábula ou conto infantil, é porque possivelmente até é. Ou, melhor escrevendo, também é.
Porque, como em todas as boas obras para os mais novos, a narrativa apresenta vários níveis de leitura. A insegurança e sugestionabilidade da protagonista, reflexo de um mundo - o nosso - em que os inadaptados são cada vez mais; o oportunismo do Lobo, apostado em viver à custa do trabalho e do risco dos outros; o síndroma de Estocolmo aplicado - nos dois sentidos - à raposa e aos pintainhos; a dificuldade de assumir opções ou o facilitismo de não o fazer; uma terna e comovente visão sobre a parentalidade e a identidade; o recurso ao vigilantismo e às milícias populares quando a lei - o cão preguiçoso e acomodado - falha, mesmo que quem o assume seja um coelho idiota e um porco sugestionável - mas não são sempre assim...?
Mas, possivelmente, porque o quotidiano e a vida já dão dores de cabeça suficientes, o melhor será mesmo desfrutar de A raposa malvada pelo que ela é: uma história extremamente divertida, com um humor universal mas não isento de uns toques de sarcasmo, com uma série de inflexões e surpresas que, adiando o final o tornam também menos previsível. E para mais, extremamente bem colocada no papel por Benjamin Renner, com diálogos assertivos e hilariantes, sem tempos mortos e em renovação contínua graças a um desenho a aguarela muito dinâmico e ritmado, libertado do espartilho do limite das vinhetas. Dessa forma, dá vida a cada um dos intervenientes cuja expressividade, nos diferentes momentos do relato, é absolutamente notável e contribui de forma não displicente para a boa disposição que o leitor irá sentir, uma vez terminada a leitura e pousado o livro.
A
raposa malvada
Benjamin
Renner
Arte
de Autor
Portugal,
Maio de 2026
173
x 246 mm, 192
p., cor,
capa dura
25,00
€
(versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 25 de Junho de 2026; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)



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