Para registo futuro
Há textos que têm todas as
justificações para serem escritos, sendo das mais simples de todas
deixar informação para registo futuro e chamar a atenção aos mais
distraídos.
É o caso deste que vos trago
hoje.
Já frisei várias vezes o importante trabalho de recuperação dos clássicos nacionais que Carlos Rico (geralmente com o GICAV - Grupo de Intervenção Artística de Viseu, desta vez também com o CPBD - Clube Português de Banda Desenhada), através da Câmara de Moura, tem vindo a fazer.
A. Trigo, O menino que rabiscava paredes e Na pista de um sonho é o caso mais recente, reunindo em 48 páginas, que se revelam escassas, dois extensos textos biográficos sobre aquele autor, da autoria de José Baptista, recuperados do jornal O Louletano, a BD curta A Sombra do Gavião (com argumento de Jorge Magalhães, sob o pseudónimo de Roy West),e um sem número de ilustrações e pranchas dos mais variados géneros, que comprovam a versatilidade de um autor que marcou a banda desenhada nacional, quando apareceu nos anos 1980.
Lembro-me perfeitamente de quando esta BD, agora recuperada, foi publicada no Mundo de Aventuras 369. Se Augusto Trigo já se tinha estreado na revista com O Visitante Maldito, A Sombra do Gavião evidenciava as propriedades camaleónicas do seu traço, capaz de se metamorfosear de acordo com as necessidades do relato, inspirando-se nos grandes autores clássicos. Aqui, claramente, o modelo era Hermann e o protagonista, não por acaso, evocava o grande Red Dust.
Apesar do seu traço clássico, apesar do registo condizente em muitas das suas obras, como era apanágio de muitos dos grandes autores clássicos nacionais, a verdade é que Trigo trouxe uma lufada de ar fresco às produções dos nomes da mesma geração, especialmente nas parcerias com J. Magalhães, do western à aventura pura, com toques de fantástico, em títulos como Kumalo, Wakantanka ou Excalibuir, que mostravam a quem (não) lia a BD nacional (por ser demasiadamente histórica, pedagógica e didáctica) que havia - podia haver… - outra vida para os quadradinhos portugueses.
Confirma-o mais uma vez esta publicação, nas suas curtas 48 páginas, que abre uma nesga da porta para o universo multifacetado da arte de Augusto Trigo, da pintura à escultura, do trabalho em madeira à ilustração e à banda desenhada, tanto humorista quanto realista.
Rica em informação e conteúdo, sabe no entanto a pouco para quem teve o privilégio de acompanhar a carreira do autor ou o descobriu mais tarde.
Fosse outra a dimensão do nosso mercado e em vez deste singela publicação, teríamos um belo volume cartonado com mais imagens, mais bandas desenhadas, mais inéditos, mais informação, talvez até uma entrevista com um autor que nunca gostou de falar de si próprio, privilegiando a sua arte à palavra. Não existindo, este é o veículo disponível para conhecer melhor o homem por detrás do artista - e o artista, para lá do homem.
A.
Trigo, O
menino que rabiscava paredes e
Na pista de um sonho
José
Baptista
(textos)
Jorge
Magalhães (argumento)
Augusto
Trigo (desenho e ilustrações)
Câmara
Municipal de Moura
Portugal,
Abril
de
2026
210
x 297 mm,
48
p., pb
e cor,
capa mole
(imagens da publicação disponibilizadas por Carlos Rico; prancha de A Sombra do Gavião proveniente do Tex Willer Blog; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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