E este Porto já tão longe
Último tomo da trilogia (em quatro volumes, com quatro desenhadores diferentes) Co.Br.A., Porto, que a Ala dos Livros lançou recentemente, tem como palco da acção a cidade invicta, no início da década de 1980, e como protagonistas algumas das suas gentes, num retrato que hoje, à distancia, nos surge como desvanecido e até quase inacreditável.
Marco Calhorda, o argumentista, depois de em Operação Goa ter explorado a saída desonra das tropas portuguesas da antiga colónia indiana, e de no díptico Operação Conacri ter revisitado a Guiné, entre a gorada política de "africanização" que Spínola defendia e o massacre de Chão Manjaco, agora transporta-nos para o período pós-25 de Abril e o aparecimento de diversas organizações terroristas, com as Forças Populares 25 de Abril (ou FP-25) em destaque.
Na base desta série, esteve a organização Co.Br.A., um comando independente secreto multi-facetado, centrado na figura de Jorge Jardim, um oportunista bem relacionado durante a ditadura, com interesses pessoais e uma agenda muito próprios.
Neste último volume, que desta vez conta com o traço realista e preciso de Paulo Montes, com o falecimento do líder e a organização em desagregação e a passos acelerados para um fim que não antevia nem desejava, também ela dividida internamente pela Revolução dos Cravos, devido ao diferente posicionamento dos seus efectivos, sobram ainda contas por ajustar, com o passado e a memória, mas também com seres bem reais de carne e osso.
Com a História por base e ponto de partida mas com total liberdade ficcional, Calhorda leva-nos ao interior das FP-25 e ao seu modus operandi, quer no ajuste de contas com os ‘inimigos políiticos’, quer nos assaltos a bancos com que se financiava, vincando o papel de Otelo Saraiva de Carvalho que, de certa forma, passou de herói da Revolução a seu inimigo - ou pelo menos a inimigo da ordem que aquela estabeleceu.
Quase meio século depois, se estes tempos parecem impossíveis no seio de um povo que sempre foi de brandos costumes, esta viagem a um Porto distante e (quase) irreconhecível é mais um contributo para manter vivas memórias e ajudar “a entender melhor o que fomos e somos, nós, Portugueses.” como refere a Dr.ª Ana Gomes no seu posfácio porque “a História volta sempre, e a galope. Como estamos a pressentir”.
Co.Br.A.
- Porto
Marco
Calhorda (argumento)
Paulo
Montes (desenho)
Ala
dos Livros
Portugal,
Maio de 2026
210
x 270 mm, 88
p., cor,
capa dura com sobrecapa
21,90
€
(imagens disponibilizadas pela Ala dos Livros; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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