Uma vida a ansiar pela glória militar
Giovanni Drogo é um jovem oficial, apostado em seguir a carreira militar e cobrir-se de glória no campo de batalha, mas as suas aspirações parecem coartadas quando é colocado na inóspita Fortaleza Bastiani. Entusiasmado de início, pela proximidade da fronteira com um reino inimigo, sente-se rapidamente desiludido pela degradação do fortim e pela incúria e falta de disciplina e de postura de soldados e oficiais lá colocados, surgindo um pedido de transferência urgente como a solução.
É assim que arranca o romance O Deserto dos Tártaros, considerado uma obra-prima da literatura italiana, escrito pelo jornalista Dino Buzzatti e publicado pela primeira vez em 1940. No recente Maia BD, A Seita disponibilizou a sua adaptação em banda desenhada, assinada por Michele Medda e Pasquale Frisenda, dois autores bem conhecidos associados à Sergio Bonelli Editore; o primeiro foi co-criador da série Nathan Never e o segundo é, entre outras coisas, um dos mais destacados desenhadores de Tex - responsável gráfico até da melhor história do ranger. É o seu traço realista, preciso e elegante que dá corpo a Drogo e àqueles com quem se cruza, tão à vontade no trabalhar da figura humana, quanto em retratar a aridez da imensa extensão deserta que separa a Bastiani do inimigo, tornando quase reais e palpáveis o calor opressivo e as partículas de areia constantemente no ar.
Voltando a Drogo, aos poucos deixa-se seduzir por aquele espaço e pelo anseio de atingir a glória militar em confronto com os adversários da sua pátria, seguindo os passos de oficiais lendários que também cumpriram o seu dever patriótico naquela fortaleza.
Nasce assim uma obsessão crescente que, com o passar do tempo, o levará inexoravelmente a esquecer a mãe doente, a noiva prometida, os amigos leais, numa dedicação crescente e absurda a um espaço semi-arruinado, que vai influenciar e afetar cada um dos membros da missão em diferentes planos, e a um sonho que cada vez mais se assemelha a uma utopia, numa vivência cíclica, cada vez mais vazia, em que as altas expectativas alternam com as desilusões quotidianas.
Alegoria sobre o modo como os sonhos podem esvaziar a vida real e torná-la oca e sem rumo, O Deserto dos Tártaros, quase um século depois continua a questionar as nossas escolhas de vida e as nossas prioridades.
O
Deserto dos Tártaros
Segundo
o romance de Dino
Buzzatti
Michele
Medda (argumento)
Pasquale
Frisenda (desenho)
A
Seita
Portugal,
Maio de 2026
220
x 285 mm, 184
p., pb,
capa dura
26,00
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 10 de Julho de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas por A Seita; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



Sem comentários:
Enviar um comentário