Pura nostalgia
Thorgal
é sem qualquer dúvida uma das séries de BD da minha vida.
Descobri-o,
deslumbrado, no Mundo de Aventuras; (re)li-o aos soluços em edições
de vária proveniência: Bertrand, VHS, Futura...; ganhei absoluta
consciência da sua importância e qualidade ao ler de seguida uma
vintena de álbuns em francês; acompanhei-o, depois, mais
intermitentemente do que desejava, até ao fim do ciclo de Van Hamme,
um pouco mais até, com um Sente desinspirado - como quase sempre,
vinco… - que me levou aos poucos a deixar uma série que combinava
de forma perfeita passado e futuro, aventura e ficção científica,
um realismo e sobrenatural.
E depois, chegou Thorgal Saga, uma espécie de Thorgal de autor, que permitiu que nomes consagrados da BD francófona, pegarem no herói durante o tempo de um álbum e contarem uma aventura ainda desconhecida.
Depois do belíssimo Adeus Aarícia e da forte desilusão anunciada que foi o salto ao terceiro volume da série, Shaïgan, mergulhei neste Wendigo confortado pelas boas críticas já recebidas e pela presença de Corentin Rouge no desenho, mas também algo receoso pelas altas expectativas que tinha.
A leitura confirmou-as e confirmou que Fred Duval e Rouge acertaram em cheio na forma como se dedicaram a Thorgal.
Curiosamente, Wendigo surge a seguir ao arco do País Qâ, incompreensivelmente inédito em Portugal - e, compreendendo a opção pelos registos mais recentes, quem sabe se A Seita não teria feito melhor em começar por ele a sua edição do Thorgal regular e canónico.
Em Wendigo, de regresso à sua terra natal, Thorgal, Aarícia e Jolan, são desviados da rota por uma tempestade - ou, mais uma vez, pela vontade dos deuses - e vão ter à costa americana - em mais uma visita vicking àquele continente - sendo apanhados numa disputa ancestral, mas não secular, entre as tribos que vivem no interior e as que habitam as margens dos rios e do mar.
Estas últimas, embaladas por uma lenda antiga que afirma que a chegada de um homem de pele branca os livraria da maldição do Wendigo, um ser de tamanhos descomunal que, invocaram os povos do interior, assola e dízima todos os habitantes locais, pedem - exigem… o auxílio de Thorgal.
Com Aarícia ferida e grávida, não resta aquele outra alternativa senão mergulhar na floresta em busca das plantas que podem salvar a sua companheira e da árvore da vida de onde deverá cortar um ramo para fazer uma flecha que é o único meio de derrotar o Wendigo.
É este o pretexto para a narração de uma saga épica, centrada nos valores da amizade, do amor, e do companheirismo que Thorgal desde sempre professa, mas que ao mesmo tempo entusiasma e encheu o coração dos leitores que, como eu, vivemos já tantas aventuras com o viking que veio das estrelas...
Se o argumento de Fred Duval assenta na retoma da personagem e da sua essência, tal como Van Hamme e Rosinsli o imaginaram, o traço de Corentin Rouge, depois de Rio, Sangoma ou Islander, brilha mais uma vez intensamente, pela enorme qualidade do seu traço realista e pela diversidade da sua planificação em que usa e abusa de vinhetas de grande formato, revelando-se tão à vontade nos cenários naturais que servem de palco a toda esta narrativa bem como na representação dos seres humanos que o protagonizam e também dos seres sobrenaturais que o influenciam sobremaneira. Atrevo-me a escrever que é um absurdo a forma como ele desenha.
Wendigo, não o escondo, evocou em mim várias memórias que me são caras, entre as quais a de um poster que o Mundo de Aventuras (creio?) a certa altura ofereceu, em que Thorgal combatia a serpente gigante Jörmungand. Não me recordo se essa oferta - essa imagem - estava na altura relacionada com alguma história curta - e também não fui procurar, confesso - mas a forma como Duval foi capaz de dar sentido e vida a essa memória neste álbum, foi sem dúvida mais um ponto a favor da forma como me rendi completamente a esta leitura.
Thorgal
Saga: Wendigo
Fred
Duval (argumento)
Corentin
Rouge (desenho)
A
Seita
Portugal,
Maio
de 2026
235
x 325
mm, 136
p., cor, capa dura
28,00
€
(imagens disponibilizadas por A Seita; clicar nesta ligação para ver mais pranchas ou nas aqui reproduzidas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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