Recontar de forma bela e misteriosa
Peço
emprestada a Sophia de Mello Breyner Andresen uma frase emblemática
de O
Cavaleiro da Dinamarca:
“(…)
as histórias tantas vezes ouvidas pareciam cada ano mais belas e
mais misteriosas (...)”
E
é isto que a BD tem feito, muitas vezes, nos últimos anos: pegar em
histórias ‘tantas
vezes ouvidas’,
dar-lhes uma roupagem diferente, apropriada à linguagem dos
quadradinhos que as recontam, e torná-las ‘mais belas e
misteriosas’.
Sem renegar a sua origem, tantas vezes nos clássicos da literatura, sem ignorar o contexto em que foram originalmente publicadas, mas dando-lhes um outro poder de sedução.
É exemplo, mas apenas mais um, O Fantasma da Ópera, na versão dos irmãos Paul e Gaëtan Brizzi, que A Seita e a Arte de Autor disponibilizam na sua colecção Nona Literatura, que já disponibiliza outras obras da dupla, como O Inferno de Dante ou Dom Quixote de la Mancha.
Mas, apesar de não ser a primeira vez, a verdade é que nunca estamos preparados para as suas abordagens. Desta vez, num preto e branco sublime, em que o hiper-realismo dos cenários contrasta um pouco com o traço semi-caricatural com que trabalharam as personagens, os Brizzi transportaram para o papel a teatralidade inerente ao original de Gaston Leroux, aproveitando as páginas de formato muito generoso como um enorme palco em que vão actuando, perante o leitor, os diferentes protagonistas e figurantes.
É com eles que, mais uma vez, somos arrastados para a Ópera Garnier, em Paris, no final do século século XIX, um edifício majestoso e imponente, assombrado pelo fantasma que dá título à obra, para gáudio de alguns e temor de muitos.
Tudo começa, seria quase desnecessário escrevê-lo, quando a nova diva do espectáculo é raptada, na sequência de umas quantas ameaças, chantagens e acidentes com consequências levadas ao limite da morte de pessoas.
Encontrá-la, desvendará um segredo terrível, oculto por detrás das imponentes paredes, nas catacumbas do imóvel que emulam o antro do diabo e nas suas passagens secretas, e trará à luz horrores e tragédias, que na sua origem e desfecho têm como móbil e motor o mais forte dos sentimentos: o amor, tantas vezes visto como paixão, ilusão ou obsessão mórbida. Ou os três ao mesmo tempo, com a inerente e incontornável loucura associada.
O
Fantasma da Ópera
Paul
e Gaëtan Brizzi
Arte
de Autor/A Seita
Portugal,
Março de 2026
250
x 240 mm, 168
p. p., pb,
capa dura
29,00
€
(versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 22 de Agosto de 2026; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor e por A Seita; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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