02/04/2026

Sangoma - Os condenados da Cidade do Cabo

Movidos por ódios ancestrais


Sangoma, edição recente da Arte de Autor, é uma história de tom policial que decorre na África do Sul pós-Apartheid, embora, na prática, ele só exista no papel porque, no terreno, seja nos bairros de lata dos subúrbios, nas enormes fazendas dos brancos que os negros reclamam ou no próprio parlamento, a segregação continua presente os ódios ancestrais não se atenuaram, as feridas não sararam e qualquer pretexto fá-las reabrir. E, entre os posicionamento extremistas e radicais de um e outro lado, é difícil encontrar uma posição intermédia e equilibrada.

Por isso, quando um bebé desaparece e de seguida o potencial raptor aparece assassinado, segredos esconsos verão a luz do dia, traições serão recordadas, crendices antigas e absurdas serão evocadas, lideres brancos racistas com amantes negras serão expostos e um polícia com métodos pouco ortodoxos acabará por assumir o protagonismo, sendo arrastado para o âmago daquela tempestade perfeita.

Este argumento de Caryl Férey, com ramificações suficientes para nos servir uma história sólida e consistente, vem acompanhado de violência extrema, aquela que está latente no país e explode repetidamente à mínima provocação.

Quanto a Corentin Rouge, que já tinha mostrado a sua belíssima arte realista em Rio (disponível em edição portuguesa da ASA), cresceu, amadureceu e brilha mais uma vez, ao nível dos enquadramentos dinâmicos e da expressividade dos rostos e, em especial, quando recorre a vinhetas de maior dimensão que tornam superlativas as cenas de violência e acção. Veja-se, apenas a título de exemplo, o flashback de abertura, em que cães perseguem um escravo em fuga.

Pela temática de base, a intensidade da narrativa, o modo dramático como a história se vai desenrolando, com frequentes picos de tensão, a forma crua como o antagonismo provocado pelas diferentes cores de pele descamba facilmente para a agressão e pelo realismo como tudo isto é mostrado, exacerbando o peso da credibilidade que Sangoma evidencia, esta não é uma leitura fácil nem reconfortante, sendo incómoda até pelas questões latentes que deixa mesmo após o fechar do livro mas, estando nós ainda em Março, já pode ser apontada como uma das grandes edições do ano no nosso país.


Nota final

Lido em francês aquando do seu lançamento original, Sangoma já me tinha deslumbrado, embora não seja este o temo mais indicado para descrever a sensação provocada por um relato tão violento e brutal.

Embora a minha leitura de então não defira muito da actual, podem relembrá-la aqui, pois eventualmente haverá uma ou outra reflexão adicional.


Sangoma
Caryl Férey (argumento)
Corentin Rouge (cor
Arte de Autor
Portugal, Março de 2026
232 x 310 mm, 152 p., cor, capa dura
33,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 20 de Março de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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