22/04/2026

Ulysse & Cyrano

O bom sabor da leitura de conforto


Tal como existe comida de conforto - a das nossas mães, das nossas avós à cabeça… - existe leitura de conforto, aquelas que nos deixam de bem com a vida, a acreditar nos homens, a crer em utopias e na vitória dos sonhos sobre ’o que tem de ser’.
Ulysse & Cyrano, mais uma obra justamente emoldurada com vários prémios, que a ASA disponibilizou em português logo em Janeiro é mais um exemplo disso. Saboroso.

A acção decorre numa França pós-Segunda Guerra Mundial, com contas por ajustar com os que, de alguma forma, cooperaram com o invasor inimigo. Os colaboracionistas.

O pai de Ulysse, dono da maior cimenteira francesa é um deles. Continuador dedicado da herança de família, aspira ao mesmo para o filho, independentemente do que este possa querer ou ansiar. O negócio é a sua vida, esquecendo no percurso o que a vida deve ser. A família.

Distraído com a pintura, Ulysse pena para se preparar para os exames que lhe permitirão continuar a estudar e tirar o curso que o pai projecta, mas o acaso tem outros planos. Um processo contra o pai, obriga-o a ir com a mãe para uma casa na província, onde conhecerá Cyrano, um cozinheiro caído em desgraça por razões que o relato irá esclarecer. A falta de apetite da mãe, desde sempre submissa ao marido, levará o jovem Ulysse para a cozinha de Cyrano, onde descobrirá a sua verdadeira vocação. O que lhe dá prazer.

Mas, nos livros como na vida real que tantas vezes espelham, seguir os sonhos nunca é fácil, entre resistências internas e oposição externa, a reprovação da sociedade e o medo de errar ou desiludir os que se amam.

Entre iguarias reconfortantes ou a nova cozinha, o crescimento a que o tomar de decisões obriga, novas relações ou o retomar das antigas, a busca interior e a transmissão de saberes, Stéphane Servain e Xavier Dorison constroem uma epopeia gastronómica, consistente e credível, que seduz primeiro e apaixona depois, obrigando a voltar página após página, entre avanços e recuos, entre sucessos e fracassos, entre o acreditar e a mais profunda descrença, numa daquelas histórias que surpreende sucessivamente sem nunca cair no facilitismo. Que não se esquecem.
O traço de Antoine Cristau, expressivo, dinâmico quanto baste, de planificação variada e servido maioritariamente por cores quentes e aconchegantes, dá o condimento adequado a uma narrativa que se degusta com tempo, calma e prazer, para sentir todas as suas texturas e sabores.


Ulysse & Cyrano
Stéphane Servain e Xavier Dorison (argumento)
Antoine Cristau (desenho e cor)
ASA
Portugal, Janeiro de 2025
240 x 318 mm, 184 p., cor, capa dura
30,90 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 1o de Abril de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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