24/04/2026

Um feiticeiro de Terramar

Saber adaptar



Tenho para mim que há duas formas de julgar uma adaptação: pela sua fidelidade à obra original e pela sua validade no novo suporte. 
Isto aplica-se do mesmo modo quando um romance passa ao ecrã ou a banda desenhada mas também, no sentido inverso, quando uma banda desenhada passa ao ecrã, seja ele televisivo ou cinematográfico.

Pessoalmente, prefiro ler - ou ver… - adaptações cujo original não conheço; isso permite-me desfrutar melhor da obra adaptada - desde que ela siga as regras do novo meio em que está a ser narrada, claro está. Porque, quando tenho necessidade de fazer uso da memória (da obra original) para preencher as lacunas da adaptação, é sinal de que algo não funcionou bem.

Foi esses desconhecimento que me guiou na abordagem deste Um feiticeiro de Terramar, originalmente um romance de Ursula K. le Guin. Nele, acompanhamos Ged - futuramente o maior feiticeiro de Terramar - quando ainda era jovem, aprendiz, imaturo, imprudente e impetuoso.

De forma resumida - e há mais para além disto nas duas centenas e meias de pranchas que Fred Fordham desenhou - esta é uma obra sobre adolescência e juventude, sobre crescimento, sobre identidade, sobre a capacidade de conhecer os próprios limites e saber até onde se deve ir. A par da deambulação de Ged sobre o universo que Le Guin imaginou, há também uma profunda busca interior, num relato muito mais emocional do que propriamente de acção, com excepção de umas poucas cenas.

E se isso obrigava desde logo a uma leitura mais pausada, o mesmo efeito é introduzido pelo recurso à côr directa no desenho, ou, mais explicitamente, ao tom demasiado escuro que a impressão introduziu no livro.

Em paralelo, o excesso de textos de apoio também coopera no mesmo sentido, sirvam eles para descrever acções ou sensações. Isso é notório até sensivelmente metade do livro, reduzindo-se esses textos depois quase por completo, como se FredFordham fosse aprendendo à medida que avançava nesta sua versão de Um feiticeiro de Terramar, o que soa estranho sabendo que estamos perante um autor já muito experiente na adaptação de obras literárias.

Acredito que em boa parte dos casos teria sido possível fazê-lo de outra forma e utilizar a linguagem própria da BD para fazer avançar o relato, como aliás comprovam alguns dos capítulos finais, em que o texto escrito, seja ele de apoio ou mesmo diálogos, se reduzem ao mínimo ou desaparecem mesmo, sem que haja qualquer prejuízo da leitura, bem pelo contrário, pois ela é beneficiada pela composição das páginas.

No entanto, mesmo o facto de o desfecho final ter sido explicado por palavras, deixa-me dividido quanto a esta ser uma adaptação realmente conseguida, embora para mim seja inegável que me deu prazer lê-la.


Um feiticeiro de Terramar
Fred Fordham segundo Ursula K. le Guin
Relógio D’Água
Portugal, Abril de 2026
163 x 235 mm, 288 p., cor, capa mole com badanas
24,00 €

(imagens disponibilizadas pela Relógio D’Água; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a côr diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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