Em nome da memória, contra a cegueira
Quase
dois anos depois, está finalmente completa a adaptação em BD que
Milo Manara fez do romance O
Nome da Rosa,
de Umberto Eco e que a Gradiva editou em português.
O
original é célebre, o filme contribuiu para o conhecimento da
história, por isso a curiosidade em torno da sua passagem para banda
desenhada consistia essencialmente em ver como conseguiria Manara
contar por imagens um texto denso, para mais passado num espaço
relativamente fechado, uma abadia beneditina.
E a verdade é que o desenhador italiano correspondeu, aplicando um ritmo obrigatoriamente lento à sua obra, em parte devido aos textos mais extensos, com muitos subentendidos e referências, necessários para guiar o leitor, em parte porque mesmo as sequências com pouco texto obrigam a uma leitura atenta das imagens para as apreender na sua totalidade.
Manara vai compensando o peso do texto escrito como uma planificação em que, aqui e ali introduz, vinhetas de maior dimensão, até de página inteira, que descansam olhar e libertam um pouco da atmosfera opressiva que perpassa por todo o relato.
Baseado no relato de Adso, jovem noviço ao serviço de Frei Guilherme de Baskerville, de mente demasiado aberta para a função de inquisidor que em tempos cumpriu, pode ser considerado uma narrativa de tom policial, uma vez que se baseia principalmente na tentativa de descoberta do assassino de uma série de frades. Para além disso, apesar do ascetismo que reina na abadia, a sua recriação, para ajudar o leitor a situar-se, está muito bem conseguida, bem como a caracterização gráfica dos principais intervenientes, apesar da quase ausência das mulheres em que o desenhador italiano é mestre.
O Nome da Rosa, mergulha também um pouco na verdade histórica da época, em especial nas razões e consequências da quase guerra civil que grassava no seio da Igreja Católica, devido à diferente visão sobre o conceito de pobreza cristã que animava diferentes facções.Mas, esta é também - ou principalmente? - uma obra trágica e violenta sobre a importância da memória, sobre a importância da sua preservação, mesmo quando essas memórias são incómodas ou vão contra aquilo em que nós acreditamos. Porque, querendo ou não todos nós, especialmente como sociedade, temos um passado que importa conhecer para não repetir os mesmos erros - como a actualidade o vai vincando. Neste caso específico, trata-se de preservar ou não as obras contrárias à doutrina católica. Por isso, para lá dos evidentes efeitos narrativos, não é por acaso que o guardião da biblioteca da abadia é cego… Um cego (pela fé) que quer guiar os que vêem...
Nota 1
Devido à integração da Gradiva no grupo Guerra e Paz (?), na lombada do álbum o logótipo Gradiva BD foi substituído pela imagem original desta editora. Não passando de um pormenor, o conjunto (dos dois álbuns) destoa.
Nota 2
Terá sido este álbum o canto do cisne da Gradiva na BD? Desejando que não, temo que sim.
O
Nome da Rosa 2
Milo
Manara
Gradiva
Portugal,
Fevereiro de 2026
215
x 300 mm, 72 p., cor, capa dura
24,50
€
(versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 28 de Março de 2026; imagens disponibilizadas pela Gradiva; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



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