Enorme coração
Escrevo estas linhas conscientemente: não consigo pensar em mais nenhum autor que, como Zidrou, seja capaz de transmitir tão bem emoções, combinando de forma adequada e equilibrada humor e ternura. É um autor que consegue emocionar-nos, ao mesmo tempo que nos faz sorrir, que junta a lágrima com a gargalhada e, finalizada a leitura, nos deixa de bem com a vida, connosco próprios e até com os outros.
[No que respeita a emoções e sentimentos, vem-me à cabeça outro nome: Jim; no seu caso, porém, a abordagem é mais realista, por vezes crua, outras até violenta, embora igualmente capaz de nos obrigar a um olhar introspectivo.]
Com A Adopção, de que a Ala dos Livros acaba de lançar o terceiro tomo auto-conclusivo, Zidrou prova-o mais uma vez.
O ponto de partida, real ou não pouco importa ,é desafiador porque espelha uma daqueles acasos que (até) pode acontecer uma vez num milhão: incapaz de engravidar, um casal opta pela adopção. Para tentar ter garantias, faz o pedido em simultâneo em França e Espanha, países de origem de cada um deles. Resultado: dois sim praticamente ao mesmo tempo. E um terceiro, quando a natureza decide funcionar de repente e a mãe engravida.
Este resumo, oriundo da contra-capa do livro, vai-nos sendo desvendado aos poucos no mesmo, porque Zidrou optou aqui por um relato que avança e recua, evocando episódios passados para justificar e fazer compreender o presente.
Presente conturbado, pois o falecimento do pai volta a reunir as três irmãs e leva à recordação dos muitos momentos felizes que passaram com ele.Confesso que, com uns quantos retoques, em vez de integrado na série A Adopção, O Rei dos Mares também poderia ser um volume de Verões felizes, - e que saudades eu sinto dos Faldérault... - mas, num caso (real) ou noutro (transposto por mim), o fundamental é a forma como Zidrou gere a dor, atenuando-a com os momentos de felicidade que aquela família viveu. Emoção pura, humor desarmante, ternura imensa - tristeza também - sucedem-se ao virar das páginas, num corropio imenso, extremamente sensível, profundamente cuidadoso e respeitador, levando-nos a criar laços com as três jovens, com a mãe e, principalmente com o pai, como se os conhecêssemos- como se fôssemos da família… - e tivéssemos o privilégio de partilhar a sua vida.
Com um nó na garganta e um sorriso nos lábios - e, sim, é possível, Zidrou consegue transmiti-lo - vamos acompanhando uns quantos episódios da vida desta família que os autores - porque Arno Monin é parte integrante do todo, como aquele que dá feições e vida no papel aos protagonistas - quiseram partilhar connosco, até ao epílogo antes do final - a penúltima página - em que tudo se solta e uma bela gargalhada nos leva a entender que a vida é para ser aproveitada e vivida, criando belas recordações para os momentos tristes que inevitavelmente acabarão por surgir.
A
Adopção 3 - O Rei dos Mares
Zidrou
(argumento)
Arno
Monin (desenho)
Ala
dos Livros
Portugal,
Abril de 2026
242
x 316
mm, 72
p.,
cor, capa dura
25,90
€
(imagens disponibilizadas pela Ala dos Livros; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



Sem comentários:
Enviar um comentário