04/05/2026

Elric 1 e 2

Até onde nos leva o desejo de vingança?

Criado na década de 1960 pelo escritor britânico Michael Moorcock , Elric é uma saga de espada e feitiçaria que, apesar do sucesso atingido, nunca teve a devida atenção da TV ou do cinema, possivelmente pelos altos custos envolvidos na criação de um mundo a um tempo rude e majestoso.

Ao contrário, a ilustração e a banda desenhada dedicaram-lhe a devida atenção, tendo sido reproduzido e/ou adaptado pela arte de nomes como o pioneiro James Cawthorn ou Philippe Druillet, P. Craig Russell, Walter Simonson, Howard Chaykin, Frank Miller, Mike Mignola…

A mais recente adaptação, feita a várias mãos, acaba de ser editada em português pela Arte de Autor, que lançou em simultâneo os dois primeiros volumes - O trono de rubi e Stormbringer - dos quatro previstos.

O protagonista, que dá nome à saga, é um monarca, albino, que reina sobre Melniboné. Mas a sua saúde frágil reflecte-se sobre o seu território, há muito em decadência e cobiçado por aqueles que, ao longo dos séculos, foram dominados e explorados. Entre eles, como a po0nta do icebergue, surge Yyrkoon, próximo do monarca para melhor lhe poder usurpar o trono. Entre eles, uma mulher, Cymoril, responsável por restaurar as forças do seu soberano através de banhos de sangue dos seus súbditos.

Mundo amoral, sem lugar para os sentimentos ditos ‘nobres’, constituindo Elric uma excepção neste particular, Melniboné assenta na força do seu exército na lealdade forçada daqueles que domina, e na crueldade dos que são dominadores, estando no centro de um universo onde a força bruta anda de mãos dadas com a feitiçaria e os poderes do oculto.

Tendo cada favor e cada aliança um custo alto, em valores como almas ou submissão, cada batalha pelo trono implica muitos mortes e um crescer constante do ódio que parece alimentar todos.

A adaptação de Julien Blondel, aplaudida pelo próprio Moorcock no prefácio do primeiro álbum, pelos elementos inéditos introduzidos que ajudam a dar-lhe consistência no novo suporte, graficamente teve como executores Didier Poli, Robin Recht - de quem já pudemos desfrutar de um excelente Thorgal de autor, Adeus Aarícia, e Jean Bastide, curiosamente um dos responsáveis pelas aventuras a solo de Ideiafix! Com um traço agreste, cores sombrias e uma estética barroca, este trio recria de forma consistente e credível os mundos góticos que Moorcock imaginou, destacando a violência e o sobrenatural recriados em grande formato, em cenas que ultrapassam quaisquer vestígios de uma planificação tradicional, dando palco a uma das mais velhas perguntas da humanidade, esteja ela na Terra ou noutro lugar qualquer: até onde estamos dispostos a ir para conseguir o que queremos e ou para nos vingarmos daqueles que odiamos?


Nota final
Num tempo em que as editoras ‘habituaram’ os leitores a edições integrais ou, no mínimo, a volumes duplos, porquê a opção por álbuns isolados, para mais quando são lançados os dois primeiros em simultâneo?

Isso, no entanto, não desmerece em nada (mais um)a bela edição da Arte de Autor, com ambos os volumes complementados com diversos extras.


Elric 1 - O trono de rubi
Elric 2 - Stormbringer
Julien Blondel e Jean-Luc Cano (argumento)
Didier Poli, Robin Recht e Jean Bastide
Arte de Autor
Portugal, Abril de 2025
240 x 320 mm, 64 + 56 p., cor, capa dura
19,50 € (cada)

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 17 de Abril de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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