As múltiplas formas de amar
“Deve ser penoso escrever centenas e centenas de páginas quando já se sabe o nome do culpado!” A afirmação, dita por um empregado de café ao homem que todas as tardes vem para o estabelecimento escrever romances sentimentais, ecoa após a conclusão da primeira das narrativas que compõem Amore, uma co-edição Arte de Autor/A Seita.
E podendo, fora do contexto, evocar uma intriga policial, a verdadeira temática está no título do livro de Zidrou e Merveille que, da Itália interior ao litoral mediterrânico, do mais profundo daquela península aos lugares mais turísticos e mediáticos como Veneza, exploram as múltiplas formas de amar, em pequenos relatos assertivos, incisivos mas com muito com que sonhar… e pensar. Porque o amor pode ser belo, de encher o coração, ou ser mais desencantado; pode ser momentâneo, passageiro, pacífico ou arrebatador; fruto de uma breve mas intensa paixão, ou eterno, acompanhando vidas inteiras. Pode ser de imensa ternura ou eufórico, pode ser correspondido, platónico ou existir apenas na mente de quem o sente e sonha. Pode deixar um sorriso ou uma pergunta nos lábios, fazer-nos acreditar no ser humano e levar-nos a sonhar com o amor ideal, seja lá isso o que for - seja lá isso o que for para cada um de nós.
Pode ser o amor tradicional, o amor carnal, o amor sexual, o amor subliminal, o amor sacrificial, o amor enquanto o padre prega, o amor que espera enquanto o par busca alguém com quem se pagar de uma traição…
Se a qualidade da escrita de Zidrou - a sua ternura, o seu humor, o seu olhar crítico… - já não consegue surpreender-nos a cada novo livro - e, felizmente, são já várias as suas obras publicados em Portugal - o traço de Merveill revela-se uma sedutora maravilha - desculpem, não resisti ao trocadilho óbvio - numa linha clara um pouco retro, servida por belas cores mediterrânicas e por um sombreado que acentua momentos mais recatados ou por uma iluminação intensa, que expõe os sentimentos aos olhos de todos, dá vida e consistência a cada um dos contos.
Num conjunto heterogéneo, em que convivem paixão e tragédia, violência e ternura, histórias de vidas e as vidas das histórias, Amore é uma invocação delicada e serena de uma Itália profundamente nostálgica, em que o tempo ainda é capaz de parar ou de avançar apenas preguiçosamente, mas que também nos recorda que no amor como em tudo, temos um papel a desempenhar: deixarmo-nos amar e saber amar os outros.
Amore
Zidrou
(argumento)
Merveille
(desenho)
Arte
de Autor/A Seita
Portugal,
Abril de 2026
170
x 240 mm, 128
p., cor,
capa dura
18,00
€
(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 1 de Maio de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pelas editoras Arte de Autor e A Seita; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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