Quase
dois anos depois, está finalmente completa a adaptação em BD que
Milo Manara fez do romance O
Nome da Rosa,
de Umberto Eco e que a Gradiva editou em português. O
original é célebre, o filme contribuiu para o conhecimento da
história, por isso a curiosidade em torno da sua passagem para banda
desenhada consistia essencialmente em ver como conseguiria Manara
contar por imagens um texto denso, para mais passado num espaço
relativamente fechado, uma abadia beneditina.
Quem
segue este blog sabe que, desde o início, fui seduzido por esta
série, Alix Senator. Pelo período em que decorre,
pelo tom mais adulto que assume em relação à série original e
também pelas pontes que a argumentista foi construindo em relação
a esta última. Mas, com este díptico, Valérie Mangin consegue
finalmente controlar totalmente a narrativa.
Parte
integrante da colecção A
Sabedoria dos MItos que
a Gradiva tem lançado com assinalável
regularidade, o
trípticoIlíada, a que volto conforme prometido após a leitura do volume inicial,é
sem dúvida o mais interessante relato da colecção, até ao
momento.
O
acaso, mais uma vez, juntou no tempo - nas minhas leituras e na sua
expansão através dos textos que aqui escrevo - duas obras de
temática similar: ambas são aproximações biográficas a dois
dirigentes
políticos e ditadores. A
primeira, Hitler,
está
aqui em As
Leituras do Pedro, desde
a passada terça-feira; a outra,
Napoleão,sob
a forma de tríptico, entra agora.
Por
vezes, as memórias surgem de onde menos se espera, desenterrando
imagens, ideias, momentos que julgávamos perdidos - que não
julgávamos nada, aliás,
porque estavam pura e simplesmente esquecidos.
Lepanto,
o terceiro volume da colecção As Grandes Batalhas Navais,
que continua a ser aposta da Gradiva, foi um desses gatilhos.
Actualmente,
uma das características mais interessantes da publicação de banda
desenhada em Portugal é a proximidade entre as edições portuguesas
e as edições originais, quando não a sua simultaneidade. No
caso de Tango,
o oitavo volume, O
Tesouro do Mar de Sulu,
conclusão do díptico iniciado com A
Flecha
de Magalhães,
acaba de chegar às livrarias com um pequeno hiato de três meses em
relação à edição francesa,
o que significa que a Gradiva conseguiu 'apanhar' a série original
em num período de apenas
quatro
anos.
Preservar
a memória é fundamental num tempo em que a informação - e a falta
dela - é tão etérea e passa tão depressa quanto surge: à
velocidade de um clique.
Penso
que já o escrevi por aqui: apesar de ter lido todos os álbuns
publicados em português - e de ter tido até o privilégio de
traduzir parte deles, o que potencia sempre uma leitura mais
profunda, completa e atenta - nunca fui fã absoluto de Alix
e a série nunca foi uma das minhas referências, embora lhe
reconheça todos os méritos e qualidades - tal como algumas
fraquezas. Curioso,
a princípio em relação a Alix Senator,
a cada novo álbum dou por mim mais rendido a esta inteligente e
consistente sequela.
Se
às novas gerações o western
dirá
pouco, houve uma época em que o género imperava e seduzia. Na banda
desenhada, como no cinema, os grandes espaços naturais, o confronto
entre o homem branco,
dito
“civilizado”,
e os peles-vermelhas,
ditos
“selvagens”, e a necessidade de superação constante eram os
principais atractivos, a par de figuras marcantes que preencheram o
imaginário de muitos, do western
puro
e duro, com muitos tiros e poucas considerações, de que Tex
será um dos melhores exemplos, aos relatos humanistas, que têm em
Buddy Longway um dos mais relevantes.
Querer
conhecer o passado para compreender o presente e poder prever o
futuro é apanágio nos seres humanos. E é-o também, naturalmente,
dos leitores de banda desenhada que gostam de descobrir a génese das
séries que acompanham e saber como se foi formando a galeria de
protagonistas. A
trilogia de leituras que trago hoje tem este ponto em comum: são o
princípio de algo, embora em moldes completamente dispares umas das
outras.
Alix,
criação de Jacques Martin em 1948, para a Tintin
belga, foi uma das personagens marcantes do tempo áureo daquela
publicação. Adolescente, permitia que os jovens leitores se
identificassem com ele; sensato e com uma sólida base histórica,
garantia o apoio dos pais a essa leitura. Há
alguns anos, Valérie Mangin e Thierry Démarez, imaginaram o seu
regresso em adulto, como senador romano, numa série de álbuns que a
Gradiva tem publicado com uma regularidade muito interessante, sendo
o mais recente A
Floresta Carnívora.