17/08/2026

Islander 1

Para onde estamos a caminhar?



Alterações climáticas. Catástrofes naturais. Migrações descontroladas. Campos de acolhimento - ou de concentração?… Estes temas, incomodamente actuais, são a base de Islander, que a Arte de Autor propõe em português, uma leitura que ganha relevância nos dias que correm e quando o segundo de três volumes está prestes a ser editado.


A história decorre num futuro indeterminado, mas que se sente mais próximo do que seria desejável, numa Europa devastada por catástrofes naturais e também pela acção humana. Sobram, intocados ou quase, alguns territórios - ilhas será o termo adequado - como a Escócia ou a Islândia, transformadas nos paraísos possíveis com que todos sonham, mas cujas fronteiras estão fechadas a quem não tem um passe especial, obtido em troco de dinheiro ou conhecimentos específicos. Nos portos continentais ultra-militarizados, os refugiados, os candidatos a embarcar, amontoam-se sem condições, ansiando pelo próximo barco.


Só que a Islândia, que vai servir de cenário a este thriller desenhado, também está em estado de sítio, dividida por movimentos secessionistas - e pelo receio de quem possa vir - e os poucos felizardos que lá conseguem chegar são colocados em autênticos campos de concentração, sem qualquer tipo de condições.

Num tempo em que a informação circula pouco e é pouco credível, é para lá que se dirige o professor Zyzek, um eminente cientista que acredita ter a solução para garantir algum futuro à humanidade, o projecto Islander.


O argumento tem a assinatura de Caryl Férey, que já nos tinha servido Sangoma (Arte de Autor, 2026), um violento policial com o apartheid sul-africano como pano de fundo, que propõe agora uma história de actualidade premente, que projecta um futuro possível face às mudanças que enfrentamos, num drama com várias linhas condutoras, que também assume contornos políticos e familiares, em que se vão entrecruzando diferenças sociais, xenofobia e racismo.

A seu lado, tal como em Sangoma, está mais uma vez Corentin Rouge, que depois da exuberância do território sul-africano e da crueza da violência urbana nas favelas do Rio de Janeiro em Rio (ASA, 4 volumes), nos transporta agora para o território gelado da Islândia, afirmando-se como um dos grandes desenhadores realistas da actualidade.


Islander
Caryl Ferey (arguento)
Corentin Rouge (desenho)
Arte de Autor
Portugal, 2026
232 x 310 mm, 160 p., cor, capa dura
33,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 7 de Agosto de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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