24/08/2026

Regressar a Tintin, à boleia do eclipse

O acontecimento mediático [da semana de 9 a 15 de Agosto], o eclipse do sol, foi o pretexto - desnecessário - para regressar a Tintin e a uma das suas mais emblemáticas aventuras: o díptico As 7 bolas de cristal/O Templo do Sol, disponível em edição portuguesa da ASA.

Se o realismo é uma das notas distintivas da obra-prima de Hergé, a verdade que o ponto de partida aqui é fantástico: regressados do Perú, onde descobriram o túmulo de um soberano inca, Rascar Capac, sete exploradores começam a ser afectados por um estranho mal, mergulhando primeiro numa profunda letargia, de que só saem durante espantosas convulsões que os afectam simultaneamente todos os dias. à mesma hora. Depois, entra em cena a aterradora múmia do inca, que tantos pesadelos causou a jovens leitores de Tintin.

Preparado o enredo, começa a aventura em estado puro: o rapto do professor Girassol por índios, irá levar Tintin e Haddock num longo périplo até ao Perú, numa viagem recheada de peripécias e de perigos de cortar a respiração e que muitos ainda guardam na memória: a entrada sub-reptícia num cargueiro, o atentado no comboio que descarrila para um precipício, Milú levado por um condor, uma avalanche de neve, animais selvagens, a condenação à morte em sacrifício ao deus Sol dos incas…

Há de tudo um pouco, sempre com o contraponto do humor para equilibrar as tensões, numa história construída com enorme mestria: a título de exemplo, veja-se logo no topo da segunda prancha de As 7 bolas de cristal, como o sentido de leitura da prancha acompanha o movimento de Tintin ao longo do seu passeio. Ou como, no final de cada página ímpar há um momento de suspense, que deixava o leitor da revista ansioso pela continuação da aventura na semana seguinte - ou impele o leitor do álbum a virar de imediato a página.

Numa série que é também profundamente humanista, veja-se o elemento narrativo que Hergé introduziu para que a vida de Zorrino seja salva ou, acima de tudo, o que move Tintin e o capitão na sua busca: a amizade pelo distraído Girassol, que os leva a atravessar meio mundo e a enfrentar todos os perigos e adversidades.

E, numa narrativa em que coabitam o mistério, o suspense, o exótico e até o fantástico, veja-se como ao longo de mais de 30 páginas, Hergé prepara o momento charneira da aventura, contrastando a aparente calma de Tintin face à morte que se aproxima, com o desespero crescente de Haddock, até à radiosa entrada em cena do astro-rei, rapidamente ofuscada pelo eclipse que é o momento alto da obra e que vai culminar de forma magnífica e superior uma das mais brilhantes aventuras do ‘repórter que nunca escreveu uma linha’.


Tintin - O Templo do Sol
Hergé
ASA
Portugal, 2011
198 x 261 mm, 64 p. p., cor, capa dura
9,90 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 14 de Agosto de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

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