Os progenitores dos nossos heróis
Entre os muitos heróis que a revista Tintin revelou - de forma mais massiva e com edição cuidada, pois muitas das séries já tinham estado nas páginas e outras publicações nacionais - num tempo em que a banda desenhada era sonho, aventura e divertimento, houve um capaz de despertar as paixões mais furiosas tanto quanto os ódios (platónicos) mais entranhados.
Refiro-me a Michel Vaillant, o célebre piloto de Fórmula 1, cujo sucesso também se fez da sua ligação íntima a este desporto e da interação da personagem com pilotos reais. Os detractores, apontavam-lhe os queixos quadrados, as vinhetas preenchidas com onomatopeias e, também, os argumentos demasiado lineares.
[Os apreciadores, gostavam de corridas automóveis...]
Outro dos aspectos que distinguia à série, era a sua base familiar, no seio do clã Vaillant, com o herói rodeado pelo irmão e chefe de equipa, Jean Pierra, o pai, Henri, fundador das empresas familiares, e a mãe, Agnes, a quem estava reservado o papel de âncora mas também de sofredora durante as sucessivas corridas. Papel que, mais tarde dividiria com Françoise, primeiro namorada e, depois, esposa do protagonista.
Numa época em que é preciso alimentar a todo o custo a nostalgia da geração que então era adolescente e agora trabalha e tem dinheiro, uma das abordagens recorrentes é regressar à infância dos heróis.
No caso de Henri Vaillant, uma vida de desafios, o recuo ao passado fez-se por (outras) portas (travessas?), na opção de desvendar a vida do patriarca, o pai Henri, também ele piloto e fundador da marca.
Entre os primeiros sucessos competitivos, a relação - nem sempre pacífica - com a futura mãe dos seus filhos, as atribulações de uma Guerra Mundial e a pouca lisura que caracterizou alguns adversários (e amigos), o relato vai avançando sem especial capacidade de prender, apostando todas as cartas nos saudosistas da família Vallant, mas até estes vão desconfiar do fraco traço - em que nem os automóveis escapam… - com que Claudio Stassi desenhou este tríptico que - muito bem - a ASA reuniu num único volume integral.Nascida a preto e branco, a vida de Henri Vaillant (curiosamente) só ganha cor no terceiro dos três álbuns, não por acaso - digo eu - quando um certo Michel começa finalmente a competir...
Para quem quiser mais do que saudosismo, o aspecto mais interessante de Uma vida de desafios acaba por ser a forma inteligente como o argumentista Marc Bourgne fez a ponte entre este seu relato e alguns episódios já conhecidos do percurso de Michel Vaillant, nomeadamente com algumas das histórias incluídas em Michel Vaillant - Origens 1, o que contribui para lhe proporcionar alguma consistência e captar a atenção do leitor.
Henri
Vaillant - Uma vida de desafios
Marc
Bourgne (argumento)
Claudio
Stassi (desenho)
ASA
Portugal,
Novembro de 2025
210
x 285 mm, 168 p., cor, capa dura
22,50
€
(imagens disponibilizadas pela ASA; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)



Comprei o volume.
ResponderEliminarE o que me chamou de imediato a atenção foi que o traço, poderia, e deveria, ser melhor.