Verso
e reverso
Para mim, actualmente, há duas Júlias: uma insuportável, a outra que continua a seduzir-me.
A primeira é a que vem acompanhada por Emily; confesso que já não tenho paciência para os apartes desapropriados, para os trocadilhos parvos, para os desequilíbrios comportamentais da cozinheira/governanta de Júlia Kendall. Quando ela entra em cena, apetece-me sair que é, como quem diz ,fechar a revista e passar a outra (leitura).
Mas, felizmente, existe a outra Júlia. A criminóloga que investiga, que tem amigos que ajudam com as suas capacidades e habilitações, aquela que se preocupa com as pessoas, mesmo que sejam criminosos, que coloca em primeiro lugar o ser humano e não a resolução dos casos. Mesmo que, quase sempre, uns e outros estejam ligados.
É esta última que protagoniza O Furto do Século, um roubo anódino de um Van Gogh de um museu de Garden City.
Com a polícia local, o detetive Leo Baxter e o ex(?)-ladrão Timothy O'Leary, Júlia vai investigar, tentar descobrir, acima de tudo tentar salvar a face de uma cidade, de um país, a quem o quadro tinha sido confiado.
E apesar de, desde o início, sabermos como tudo aconteceu, não deixamos de, ao lado de Júlia, sentir as emoções que ela sente, experimentar as ilusões que experimenta, sentir a confiança que tem em quem a rodeia e perceber como muitas vezes a explicação mais simples é a verdadeira.
E, sendo assim, fica uma questão no ar: todo o roubo deve ter castigo?
A resposta parece única e evidente na teoria mas, na vida real, na verdade, Júlia, que é como quem diz Giancarlo Berardi, o argumentista, pode ter outro opinião e, confrontados com ela, podemos hesitar em querer afirmar a nossa...
Essa impressão prolonga-se em O segredo de Stan que, logo à partida, se destaca pelo alargar dos círculos concêntricos de relações em que a protagonista se move, humanizando-a e também àqueles com quem interage.
Berardi, possuidor de uma escrita única, proporciona-nos um relato fluído, em que vamos acompanhando Júlia mas também aqueles que são os alvos da sua investigação, numa estimulante visão dual de uma mesma questão, ao ritmo certo, geralmente lento, para nos deixar tempo para apreender tudo o que está a acontecer. A temática policial de base, muitas vezes torna-se secundária, ultrapassada por questões da atualidade e pelo lado tão humano da protagonista, apostada em encontrar as razões ou as emoções que levam a praticar o mal - pelo menos a fugir à norma social…
Neste relato, o caso parte da aposta de vida numa alimentação saudável, do abandono de tudo aquilo que na atualidade pode ser considerado prejudicial ao corpo e à mente, mas que acaba por originar uma seita. Depois, sempre omnipresente porque o ser humano não muda, vêm à tona o apelo do dinheiro, a ambição do poder, que levam a passar por cima dos outros, mesmo daqueles que aparentemente comungam das mesmas ideias, vivem segundo os mesmos conceitos, são companheiros de lutas (inglórias).
Um retrato do nosso tempo - a repetição recorrente da História da Humanidade - condimentada com os ingredientes de hoje...
Júlia
nova série #27 - O furto do século
História
originalmente publicada em Julia #226 (SBE, Itália, 2017)
Giancarlo
Berardi e M. Mantero (argumento)
Federico
Antinori (desenho)
Mythos
Editora
Brasil,
2024
160
x 210 mm, 128 p., cor, capa cartão
R$
35,90
Júlia
nova série #28 - O segredo de Stan
História
originalmente publicada em Julia #227 (SBE, Itália, 2017)
Giancarlo
Berardi e Lorenzo Calza (argumento)
Luca
Bonessi e Valerio Piccioni (desenho)
Mythos
Editora
Brasil,
2025
160
x 210 mm, 128 p., cor, capa cartão
R$
44,90
(capas brasileiras disponibilizadas pela Mythos Editora; restantes imagens disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)




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