Autêntica
instituição, no melhor sentido da palavra, Dylan Dog continua a ser
capaz de surpreender - e de fazer pensar… - número após número.
A temática pode ser fantástica ou pode basear-se na mais pura
atualidade, como é o caso de O terror, uma narrativa
com data de 2017 - mas não datada.
Por
vezes, o principal na leitura não é a intriga intrínseca em si,
mas sim questões acessórias que lhe estão associadas. E que tanto
podem servir para valorizar a narrativa como serem o sustentáculo
para ela.
Grande
apreciador do western - como sabem aqueles que me acompanham
neste espaço - tenho em Tex uma das minhas leituras
recorrentes. Para o melhor e para o pior.
Regresso
à temática dos crossovers. Neste
tempo de globalização, com tudo o que isso arrasta de melhor mas
também de menos bom, mesmo quem não é leitor regular de banda
desenhada reconhece personagens como Batman ou Dylan Dog. Para quem
os lê regularmente, o
desejo é muitas vezes outro: imaginar os seus heróis favoritos
juntos, pertençam eles ou não ao mesmo universo.
Não
é a primeira vez que uma história de Tex tem base histórica, longe
disso, mas, na minha leitura, este foi um dos relatos do ranger em
que o peso dos factos históricos mais se fez notar e o tornou mais
consistente e contido.
Penso
que todos aqueles que leram na idade certa banda desenhada de
aventuras,
com heróis fixos -
franco-belga, Bonelli, super-heróis... - sonharam um dia com um
encontro entre (alguns d)eles.
Podendo
não parecer, conseguir num mesmo relato equilibrar o lado emocional,
o sentimental, uma investigação policial e até a aventura, é algo
extremamente difícil de conseguir para conseguir satisfazer os
diferentes leitores que procuram especificamente um ou outro dos
aspectos referidos. Giancarlo
Berardi, com Lorenzo Calza, consegue-o mais uma vez neste Júlia:
A chantagem do passado.
Hoje
em dia, quando se fala de banda desenhada popular, de certa forma
evocando um tempo em que ela se encontrava em generosas quantidades
nos quiosques, há um nome que vem logo à mente, o de Sergio Bonelli
e da editora italiana que leva o seu nome. Alicerçado no sucesso de
Tex, um western puro e duro em publicação ininterrupta desde 1948,
este editor milanês conseguiu criar um sistema editorial que permite
alimentar, sem grandes oscilações de qualidade, ao nível gráfico
e temático, as revistas de 100 páginas que mensalmente são
colocadas à venda.
Foi
uma sensação brusca e incómoda: durante a leitura deste Tex
Gigante, senti a história
estava partida a meio e que as duas partes (quase) faziam sentido em
separado.
Qualquer
série de banda desenhada (o que me interessa no presente caso)
obedece a um determinado número de regras e princípios. São
eles definem o que a série é, que lhe dão consistência e
continuidade e que permitem ao leitor saber o que deve esperar quando
se abeira dela - é isso que faz dele leitor fiel (ou não). Paradoxalmente,
a quebra dessas regras ou os desvios a esses princípios não são
necessariamente negativos e, nalguns casos, até podem (e)levar a sua
leitura a um outro nível.
Já
ouvi dizer - no alto da sua ignorância e/ou suposta superioridade -
que ‘os livros do Tex são todos iguais’ mas
parafraseando vocês sabem quem, apetece
escrever que na verdade ’há uns mais iguais do que
outros’. Que é como quem diz,
pela negativa - que neste caso, na verdade é pela positiva - que
alguns são bem diferentes, para melhor, como acontece com este
Tex, o implacável.