No
início deste século, dois autores talentosos, os norte-americanos
Jeph Loeb e Tim Sale, decidiram pintar os super-heróis com cores
específicas, de acordo com as características que viam neles e
segundo as histórias que queriam contar. Essas narrativas, que se
desviavam da linha canónica das personagens, mas sem renegar nada da
sua essência, assumiram títulos evocativos do tom da paleta que
predominava: Homem-Aranha:
Azul,
Demolidor:
Amarelo,
Hulk:
Cinza
ou Capitão América: Branco.
As
gerações portuguesas dos leitores de BD dos anos 1980 e 1990 foram
especialmente marcadas pelos super-heróis, lidos nas pequenas
revistas brasileiras que chegavam (ir)regularmente aos quiosques
nacionais. As
cronologias cada vez mais complicadas e ramificadas das histórias da
DC Comics e da Marvel, com sucessivas mortes e ressurreições e
múltiplos universos, levaram muitos deles a afastar-se - e ao mesmo
tempo impediram a aproximação daqueles que se sentiam atraídos
através das versões animadas ou com actores reais.
Poucos
dias antes da estreia do filme, [no
passado dia 25 de Junho],
a Devir disponibilizou Supergirl
- Mulher do futuro,
o romance gráfico que serviu de base à película de Craig
Gillespie, que tem argumento de Tom King, um dos mais aclamados
escritores de super-heróis da actualidade.
Regresso
à temática dos crossovers. Neste
tempo de globalização, com tudo o que isso arrasta de melhor mas
também de menos bom, mesmo quem não é leitor regular de banda
desenhada reconhece personagens como Batman ou Dylan Dog. Para quem
os lê regularmente, o
desejo é muitas vezes outro: imaginar os seus heróis favoritos
juntos, pertençam eles ou não ao mesmo universo.
Leitor ocasional de comics - e cada vez mais afastado deles e
(também) por isso desconhecedor de cronologias quase impossíveis de
acompanhar pelas sucessivas mortes e ressurreições e reviravoltas
incluídas no seu historial, por autores mais ou menos inspirados e
por editoras sedentas de acontecimentos marcantes que disparem vendas
- sinto (quase) a falta de uma bagagem que me permita uma leitura
mais abrangente e completa dos (poucos) relatos que (ainda) me vão
passando à frente dos olhos.
Este
díptico passaria poderia perfeitamente integrar uma colecção do
género
Batman por…,
a exemplo do que, a nível franco-belga, tem sido (tão bem feito)
com Lucky
Luke
ou Spirou... Exemplar
único - neste contexto, na época específica - de visão/versão
europeia do Homem-Morcego, justifica plenamente a leitura por parte
dos admiradores do super-herói, tanto quanto por parte dos que
seguem Marini.
Aproveitando
a acalmia editorial que costuma caracterizar o início de cada ano em
Portugal, fui tentando diminuir a pilha de leituras atrasadas, onde 'encontrei' este
Através do espelho, que confirmou as expectativas que tinha: uma leitura consistente e
bem disposta, de tom adolescente/jovem,
mas a justificar bem o investimento.