28/10/2026

Brigada de Costumes

Maus costumes ou falta deles?


Abril de 1944. Numa França sob ocupação nazi e perseguição crescente aos judeus, ainda com poucas esperanças no inverter das posições bélicas, num tempo dado a grandes cobardias e pequenos gestos de coragem, a polícia francesa, mais especificamente a sua brigada de costumes, tem de co-habitar no terreno com os agentes alemães.
Com os tempos propícios a contornar os costumes, os hábitos e as regras, quer por necessidade, quer para aliviar tensões, aquele é um mundo que continua desafiador e incómodo para o inspector Loizeau.

É o que depreendemos das primeiras páginas de Brigada de Costumes, que a Arte de Autor e A Seita acabam de acrescentar à sua colecção conjunta Zidrou, dedicada a um dos mais interessantes argumentistas actuais, felizmente bem divulgado entre nós.

É com aquele ponto de partida que o escritor belga nos vai narrar mais uma história bem humana, a um tempo tristonha e bem-humorada, sobre gente vulgar que tenta sobreviver no meio de provações e tempos conturbados, como o comissário francês amante do ciclismo, o oficial alemão que sonha abrir uma loja de poesia e traduzir Prévert no pós-guerra ou ainda o padre que caiu em pecado e por isso perdeu a sotaina e o juízo...

Numa história em que aquilo que vemos, parece contrastar com o que as personagens sonham, e que vai saltitando entre os anos 1930 e a actualidade referida acima, aos poucos, vamos saber também que Loizeau, agora trintão estabelecido, ainda vive com a mãe e quando chegou à brigada, pouco sabia da vida e do que lhe dá prazer, seja o sexo, o abuso da autoridade ou a aplicação aleatória desta.

Por isso, imerso num sub-mundo de onde tem cada vez mais dificuldade - e também vontade - de sair, Loizeau, em clara perda de inocência, vai dar-se ao luxo de se apaixonar por uma prostituta, fantasiar com uma mulher felina e sensual - e até de perder a cabeça por ela... - e dispôr-se - pela funcionalidade… - a trocar a mãe pela porteira, quando a progenitora falece.

No desenho, encontramos Jordi Lafebre, já parceiro de Zidrou noutras belas narrativas, entre as quais Lydie ou a fabulosa série Verões Felizes, cujo traço fino dá vida aos sentimentos que Zidrou expõe e concede alma, movimento e extrema expressividade a cada uma das ricas personagens, mesmo que elas nos possam parecer banais na pobreza da via saca do seu quotidiano.


Brigada de Costumes
Zidrou (argumento)
Jordi Lafebre (desenho)
Arte de Autor/A Seita
Portugal, Junho de 2026
210 x 285 mm, 136 p., cor, capa dura
27,00 €

(versão revista do texto publicado na página online do Jornal de Notícias de 16 de Outubro de 2026 e na edição em papel do dia seguinte; imagens disponibilizadas pela Arte de Autor e A Seita; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão; clicar nos textos a cor diferente para saber mais sobre os temas destacados)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...